Monday, November 17, 2008

Sonho s.m.: Personificação paradisíaca do nada.

Seu destino no meu controle,
e que canalha me torno eu.
Te tomar, me alimentar, te beber dormindo,
te almoçar às quatro da tarde de domingo,
esquecer o sono de tarde da noite,
ignorar o Flamengo e o Fantástico.

Meus lábios passeando por aí,
avançando novos caminhos.
Meus dedos te beijando onde
olhos alheios até já deitaram,
mas nunca sequer chegaram
a um palmo de ouvir.

A noite virá a ruir,
e no limbo,
esse sonho deixará de existir.

Egoísta, te mantenho anônima.

Saturday, August 23, 2008

Mais Arte (Ficção)

Enconstados de soslaio numa parede, estamos sozinhos em meio a uma multidão que vai e vem. Não sei como a conversa começa. Você me pergunta sobre algo marcante em você, como se fosse um defeito. Pergunto, ironicamente, se queres sinceridade.

"Sim, ceridade".

Seus olhos me olham no olho. Meus olhos te olham na boca. Ela forma sons que ecoam palavras sobre coisas da vida, do seu dia-a-dia, na sua noite-a-noite. Eu não pergunto nada, apenas comento suas afirmações. Noto nossas afinidades, comento elas também.

Pequenas aflições você me confidencia. Dessas aflições, eu compartilho. Cada um na sua maneira, claro. Seus dias não querem terminar, minhas noites também não. Precisamos relaxar. Cada um na sua maneira, claro.

Mas o que você me perguntou, querida, não é defeito. Já pequei pelo excesso, hoje peco pela ausência. Vice-versa, é o seu caso. Precisamos de equilíbrio, precisamos nos equilibrar. Um pouco de você em mim, um pouco de mim em você. Seria perfeito. Mas o mundo não é perfeito.

Uma das pessoas que vai e vem nos interrompe: ela precisa mais de você do que você precisa dos meus olhos/ouvidos. Você tem que ir. E vai.

O que você precisa, querida, é mais arte na sua vida.

Wednesday, April 02, 2008

Dia Sim, Dia Não (Ficção)

A paisagem campestre refletia uma calma tremendamente inquieta. As árvores eram ladeadas por algumas parentes menores e algumas primas mais distantes de espécies aleatórias, cujas folhas, dedilhadas pelo vento, amplificavam o mais pesado dos rock’n’rolls, inaudível a ouvido nu. O homem observava (e ouvia) tudo isso de lugar algum, quase não agüentando o som, mas estudando o audiovisual deveras incomum para qualquer lugar.

À música pesada foi adicionado um solo de trompete, no estilo frenético de Miles Davis. Estranhamente pareceu fazer parte do mesmo arranjo, mas rapidamente a base pesada utilizou-se de um fade out para entregar o som ambiente ao solo. O rock’n’roll se tornara ultrapassado.

O trompete continuava lá, louco e cadencial, mas não era tocado pelo vento - o que seria mais lógico, se tratando de um instrumento de sopro. A cena já era outra. Lembrava um quarto ou uma sala sem mobílias, apenas uma cadeira onde o homem agora estava sentado. As paredes eram pintadas com uma névoa cinza embaçada, transformando o lugar num interior provavelmente infinito e labiríntico, acaso fosse explorado. No meio desse quarto/sala, um rosto familiar com um sorriso fabuloso tomou forma, em close-up. Ganhou as feições femininas tão íntimas ao homem que observava. Ouviu a mulher dizer coisas amorosas. Ouviu ela sugerir um plano improvável para tudo se resolver. Talvez tudo se resolvesse mesmo, se a mulher não tivesse desaparecido e o abandonado ao som do trompete. Ou melhor, agora era um saxofone, leve e apaziguador, quase romântico, cujas notas desenhavam um futuro melhor.

Um maldito contrabaixo arruinou essa paz momentânea. Nada contra contrabaixos, ou contra baixos, o homem tinha. Mas aquele era o perfeito som do suspense, do incerto. Entrou de sola, solando sobre o tranqüilo sax e quebrando a harmonia, exigindo o tom do momento. O rosto dela reapareceu, agora mais definido e mais amoroso, munido de um corpo esplendido, como sempre fora, e o beijou. O background já não tinha névoas ou árvores-guitarra, era um misto de alvorecer e crepúsculo. Não se sabia bem àquela hora, era preciso esperar e ver se escureceria ou se clarearia. O sax tranqüilo e o contrabaixo feroz digladiavam enquanto o homem inquiria a mulher sobre o plano. Tinha uma falha decisiva: o outro homem. Aquele sem nome, que não teria coragem de meter a cara nesse sonho nem que fosse uma cadeia infinita de pesadelos costurados.

Mas o sax ganhou a discussão com o contrabaixo. A mulher sussurrou no ouvido do homem. Sentenciou que tudo terminaria bem, que ele era presente e o outro era passado; ultrapassado, como o rock’n’roll pesado.

E o alvorecer se definiu. O sax, definitivo e atemporal, solou o fim do sonho. O homem abriu os olhos e viu a mulher, que ainda dormia, deitada ao seu lado.



P.S. Valeu a leitura, agradeço.

Thursday, March 27, 2008

Post Mortem (Ficção, continuação do anterior)

“Eu não me suicidei” (transcrição do primeiro post pós-morte).

Pois é, Luísa, eu não me suicidei. Sei que você vai ler antes de todo mundo, sempre foi assim, porque seria diferente? Porque estou morto? Na verdade eu não estou morto, estou no porão da minha casa e o corpo que levaram era de um irmão gêmeo meu, fomos separados na maternidade.

É brincadeira. Eu morri, mas não me suicidei. Pelo menos, não no sentido literal da palavra. Eu tomei sim, remédios demais, mas foi um acidente. Eu só queria não escrever. Não deu muito certo, deu? Aqui deve ser o meu paraíso... A única coisa que tem para fazer é escrever.

Naquela noite eu tinha algo para digitar que não saía da minha cabeça. Na verdade, eu era algo que eu adiava fazia muito tempo. Evitava a idéia com outras idéias. Mas ontem, as idéias se esgotaram. E o que eu queria escrever era algo para você.

Todos esses anos, todos esses posts, nenhum foi para você, deve ter notado. Nem uma carta, nem um cartão de aniversário. Seria brega. Pelo menos eu achava que sim. Eu tentava, não sei explicar como não conseguia te dizer, nem te escrever nada. Qualquer outro assunto parecia melhor de ser postado. E era assim.

Olhando para trás agora, vejo que a minha compulsão por escrever foi aumentando de acordo com a evolução do nosso relacionamento. Íamos ficando mais próximos, eu ia escrevendo mais. Na época, acreditava que escrevia mais porque você gostava de me ler, e com isso, você gostaria mais de mim. Mas era o que eu queria acreditar. Mas foi pra esconder. Esconder que te amava. Até post mortem essa frase ficou piegas. Mas fazer o que?

Eu pensava estar blindado caso um dia terminássemos. Sabia que um dia você ia diminuir dois menos um e perceber: “sou boa demais para alguém como ele”. E aí eu não queria ficar sofrendo. Parece coisa de filme, né?: “O cara dá uma de durão para esconder os sentimentos pela moça e depois percebe que perdeu tempo fazendo isso, quando não pode mais demonstrar”. Pois é o que está acontecendo. Claro que “demonstrar” eu posso, afinal você sabe ler, mas para quê? Ia ser pior para nós dois.

Admito que me arrependo de não ter te dito tudo que senti. E meu pai dizia que depois da morte não tem arrependimento... Pensando bem, meu pai dizia que “no céu não tem arrependimento”. Acho que aqui não é o meu paraíso, afinal de contas... do que adianta poder escrever e não escrever o que se quer?

Com amor.


Epílogo:

Luísa comentou no blog. Disse-lhe que escrevesse sim, que contasse tudo que não tinha escrito, e foi o que ele fez. Na mesma cadência frenética de antes, um novo texto surgia. Nenhum outro comentário, apenas os dela. Luísa pensou que talvez ninguém lesse mais. Chegou a pensar que poderia estar louca; o pensamento foi com o vento. Lia tudo o que seu namorado psicoblografava. Deixou de sair com as amigas, não queria saber de um novo namorado. Tudo o que queria era ler. Ler no mesmo ritmo compulsivo que seu eterno namorado escrevia.


P.S. Não achei muito bom não. A quem agüentou até aqui, obrigado pela leitura.

Tuesday, March 25, 2008

Causa Mortis - (Ficção)

Ainda que incerta a hora mortis, a perícia deduziu 05:30 da manhã no documento que oficializava o óbito. Causa: ingestão demasiada de remédios controlados. O morto, quando vivo, sofria de insônia, datada alguns anos antes. Procurou um (na verdade, uma) psiquiatra, que receitou um regulador de humor (sinais de depressão, talvez) e um benzodiapenídico - um dos famosos remédios “tarja-preta”.

No interrogatório, a psiquiatra ajudara como pôde. Sobre o rapaz: Ligeiramente expansivo, um tanto paranóico e neurótico (mas nada diferente da população média), inteligente e bem educado. A insônia era uma conseqüência da compulsão por escrever. O tratamento era baseado em controlar essa compulsão.

A terapeuta resumiu o que os outros interrogados afirmaram e o que o próprio histórico do blog mostrava. A cada dia um ou mais textos, envolvendo os mais diversos assuntos e gêneros, eram postados em ritmo frenético, e as horas eram as mais irregulares. Uma da manhã, dez da manhã, duas e poucas da tarde, cinco e tantas da tarde, oito da noite, oito e meia da noite - já um novo escrito. Tudo isso em um dia "normal". Seu blog era um dos mais atualizados e menos lidos da Internet. Mas isso não o incomodava. O que queria era escrever.
A namorada, muito próxima dele e admiradora assídua do blog, contou que o próprio se queixava de não conseguir parar de ter “idéias” a serem postadas, o que se tornara mais e mais constante nos últimos anos de sua vida. Os poucos que liam seu blog regularmente, entre eles amigos/ amigas (fora a namorada), já estavam acostumados, e por osmose se adaptaram ao ritmo frenético e impreciso das atualizações. Escrevia basicamente sobre tudo: seu dia a dia; histórias fictícias; resenha de livros/ filmes; poeminhas...

Mas agora estava morto. A hipótese de suicídio foi logo pavimentada por uma série de relatos vindos pessoas próximas ao jovem. Aparentava ser uma pessoa alegre, mas o ritmo frenético com que escrevia denotava algum problema. Não era normal. Imagine, alguém passar horas escrevendo, muitas vezes abdicando de outras atividades, para, simplesmente, terminar um texto da maneira que considerava perfeita. Cada entrevistado dizia, com suas palavras, a mesma coisa: “Era uma pessoa atormentada pelo próprio gosto de escrever. Quantas vezes deixara de sair de casa com a namorada para deixá-la de espectadora do seu mais novo conto?”.

Ela, que nutria um amor quase incondicional, ainda assistia satisfeita. Tinha prazer de ler antes de todos (os poucos) que liam o blog. E quando o rapaz se superava (narrativamente), ela o amava mais. Escrevia muito bem, ele. Pelo menos era o que diziam os que liam.

Avisados da súbita morte, seus leitores deixaram comentários solidários/ melancólicos/ tristes; elogios rasgados, algumas lágrimas virtuais. Questionavam se o blog ia ser desativado ou se seria melhor deixá-lo como homenagem... Mas ninguém tinha a senha para gerenciá-lo, quanto mais para desativá-lo; na verdade, nunca pensaram que seria necessário. E lá ficou o registro de quem um dia tinha sido o rapaz.

A namorada tinha, em sua página inicial do Firefox, um alerta que avisava de textos novos no blog dele. Uma semana se passou sem que o aviso desse sinal de vida. Naquela manhã de sábado cinzento, uma atualização foi acusada. Ela arregalou os olhos. Era impossível. Um frio no estômago misturava medo e esperança. "Será que alguém descobriu a senha dele?" ou será que “Ele escreveu algo novo?”

Ela clicou no link. Realmente havia um novo post. O título era: "Eu Não Me Suicidei!"

Esse post tinha toda a voz narrativa e a inconfundível linguagem usada pelo rapaz em seus relatos sobre o dia a dia. A namorada não entendeu, mas chorou baixinho para suas lágrimas molharem seu teclado. Ele tinha, de alguma maneira, escrito mesmo aquilo. Mas como pode ter escrito? E, afinal, o que ele escreveu?

P.S.: Esse termina depois.

Sunday, March 16, 2008

O Comediante Deitado (ou "Do Que Adianta?") - Ficção

Eu andava pela vida como um caminhoneiro cheio de arrebite. Era o dono do meu caminho, nada podia me deter. Sofri calado do coração um tempo, porque só tive uma namorada (que me deixou) até já beirar os 30. Vivia cercado por almas que só me serviam para a chacota. Nunca precisei de ninguém. Sempre gostei de ser do contra: falava mal de mim mesmo para os outros, esse tipo de coisa.

Com a primeira mulher que namorei (2 anos) depois da última ter ido embora eu me casei. Eu passava praticamente o dia todo falando de putaria, tava na hora de fazer, né? Palavrões, piadas cabeludas, todo o pacote; sempre me orgulhei de não ter papas na língua. Meu melhor amigo, um moralista e tão onanista quanto eu à época, achava um escândalo. Eu me sentia o máximo em chocar o próximo, e não ter medo disso. Não entendia como o mundo não era mais assim. Pra mim, parecia a imposição do mais forte sobre o mais fraco. E era. Sentia-me bem mais forte, mesmo sem saber.

Como ia dizendo, eu me casei com a segunda namorada. Mas a vida de casado não era essa maravilha toda que eu pensara: casamos virgens (uma ou outra cariciazinha aqui ou ali, e só), descobrimos ser completamente incompatíveis na cama. Fomos parando de fazer sexo aos poucos e transformamos nosso casamento numa relação simples: ela me controlava pra saber se eu fazia na rua o que eu não fazia em casa, e eu não fazia na rua porque falar é mais fácil que fazer.

Sonhava em ser uma espécie de Paulo Francis ou Arnaldo Jabor: não ter medo de falar a verdade “sincera” do dia a dia, desmascarar o que sempre via de errado na sociedade, esse negócio meio revolucionário de querer mudar o mundo com as palavras. Minha incerteza em conseguir isso forjou essa “personalidade forte”. Muitos engoliram, inclusive eu mesmo. Aprendi a fazer humor ainda novo, principalmente com os outros, de modo a alfinetá-los, diminuí-los (no começo sem saber; depois, já era tarde). Era a minha defesa. Misturei o amor às críticas com o humor nas críticas e foi uma combinação perfeita.

Fiz muito sucesso. As pessoas que se satiriza em uma vida inteira não chegam a um décimo das que estão dispostas a rir; a maioria é quem ri. E quem não gosta de uma boa piada? E de uma boa maioria? Passava a maior parte do meu tempo trabalhando, escrevendo material, rindo e, principalmente, provocando as gargalhadas alheias. Era o que me dava prazer. E sempre do meu lado, minha fiel esposa. Não tivemos filhos.

Pois é, estou fazendo esse relato sem graça porque estou na cama de um hospital, morrendo, e digo pra vocês que isso não tem graça alguma. Esse ensaio é a última coisa que eu quero escrever. Desculpem-me os fãs que talvez lerão isso (se minha família divulgar) e a minha adorada esposa, companheira nesse tempo todo, que riu comigo esse tempo todo, mas não é um texto humorístico. Consegui muitas risadas na minha vida, muito sucesso, me tornei conhecido e pude dar pitaco em tudo que quis: política, futebol, tudo, tudo era motivo pra zoar. Virei uma espécie de sumidade em criticar com humor. Provavelmente deixei um bom legado para que outros aprendam a fazer piadas como eu. Não tenho o que reclamar da vida. Ri demais, falei o que quis, respondi à altura quando ouvi o que não quis. Fui a personalidade forte que forjei, transformei em risadas tudo que me afligia, atingia, ou pensava em atingir. E o que não atingia também.
Não sei se é assim que os outros fazem ou fizeram comédia, juro que não. Era o meu jeito. E tudo o que escrevi nesse último ensaio só pode falar por mim. E falando por mim mesmo eu termino esse relato deixando bem claro: Quero que as risadas vão pra putaquipariu! O que eu queria ter feito era ter comido mais mulheres!

Monday, February 18, 2008

Inacabado (com um melhor acabamento) - Ficção

Uma cerveja eu conseguiria em qualquer lugar, até num supermercado.
Mas fui no Bar. Local público, cheguei e fui entrando.
Estava mais vazio que de costume. Aliás, eu era o único freguês... não sei dizer se outras pessoas sequer beberam lá.
A lourinha esfregava no chão a ponta de um rodo coberto com um pano encardido. Bonitinha até, não sei se era a mesma da última vez. Depois de tanto tempo, talvez não fosse. Mas ela me chamou pelo nome:
"-[Meu nome]!!! Você, aqui?!? Quanto tempo!!!" - era um clichê, obviamente. Talvez tivesse treinado com seu chefe, o dono do bar, essa recepção calorosa.
Sentei no banquinho alto, rente ao bar, e pedi uma cerveja. Ela me olhava e eu fingia que não via, fitando o balcão. Queria fugir de um possível pedido "me leve pra casa", principalmente porque eu não tinha carro. Mas não era nada disso. A lourinha me passou um papelzinho dobrado no meio, talvez rasgado de um caderno:
"-É seu?"
Não era meu.
Meu silêncio deve ter dito para ela soltar o papel no bar, já que foi o que fez.
O bilhete estava escrito com a minha letra. Uma sequencia de números. Oito números: um telefone, eu acho. Uma sequência de letras: um nome, tenho certeza. O papel não era meu, não lembrava de ter escrito aquilo. Mas a letra era. A curiosidade valia uma ficha telefônica.
Liguei e, ao ser atendido do outro lado, perguntei pelo nome anotado em cima do número. Engraçado: homônimo da minha ex-namorada. Um palíndromo de três letras, cheias de graça. A resposta não teve graça alguma:
"-Ela não quer falar com você."
Desliguei e deixei pra lá. Voltei para o bar atrás de outra cerveja, dobrei o papel novamente e joguei de volta no balcão.
"-Porque aquele bilhete tem minha letra?"
Encarei o papel dobrado durante alguns goles.
Peguei-o novamente. Outra anotação agora estava ali. Outro telefone, outro nome. E a mesma letra. A minha.
Primeiro uma ex-namorada, agora, um ex-amigo. Assuntos inacabados. Aquele pedaço de papel branco com finas linhas azuis, arrancado de um caderno qualquer de segunda, queria me dizer algo.
Liguei para o ex-amigo. Ele também não queria falar comigo. Dobrei o papel novamente. Era hora da terceira cerveja.
O que minha letra me diria agora, se eu voltasse a desdobrar aquele papel jogado no balcão?




PS.1 - Reescrevi, com o intuito (claro) de ficar (e terminar) melhor. O fim ainda está por vir, não se afobe :D . O tempo tá curto, mas prometo terminar. Obrigado pela leitura.
P.S. 2 - Se quiser comparar, o primeiro está 2 posts abaixo. Abraços.
P.S.3 - Quando alguém começa a se reciclar é porque o negócio não tá bom, hein? auheuheuhea
mas né nada disso não... eu só quis melhorar um pouquinho o texto que nem reescrito eu tinha...
valeu seu tempo. Nos vemos no fim dessa saga :Z .

Thursday, January 24, 2008

A Melhor Pizza Que Charlie Já Comeu (brincadeira de criança)

O telefone tocou na casa de Charlie. Ele foi correndo atender, antes da empregada Maria. Era sua mãe, Theresa.
_Alô? - perguntou Charlie.
_Oi meu filho, aqui é a mamãe. Está tudo bem aí em casa?
_Oi mãe. Está sim. Que horas você chega hoje pro meu aniversário?!
_Ihhh, meu filho - exclamou a mãe de Charlie - desculpe mas mamãe vai ter que trabalhar até tarde hoje. Sua tia vai passar aí logo mais, para te pegar, antes de Maria ir embora. Você vai com ela e eu te pego depois na casa de Carla.
_Ô mãe! Você já chega tarde quase todos os dias, por que até no no meu aniversário você tem que trabalhar tanto!? - perguntou Charlie, já começando a ficar triste.
Desde que o pai e a mãe de Charlie se separaram, ela começou a trabalhar para sustentar a casa, embora o pai mandasse todo mês uma pensão pra ajudar a sustentar o filho. Mas, diferente da mãe dele, o pai não ganhava tanto dinheiro, por isso Thereza precisava trabalhar. E quanto mais trabalhava, mais ganhava.
_Mas mãe... - pediu Charlie - só hoje?
_Desculpe, mas não dá meu filho. No final de semana, faremos alguma coisa para comemorar o seu aniversário e comprar o seu presente, prometo. Um beijo, tchau. - e desligou.
Às seis hora em ponto, a tia dele chegou para pegá-lo, exatamente na hora em que Maria, a empregada, largava do emprego.
_Tia Carla! - gritou Charlie ao vê-la.
_Meu lindo, quanto tempo não te vejo... o Joãozinho está no carro, vou levar vocês para comer na Pizza Hut. Pesquisei na internet, e lançaram uma pizza nova de um sabor que eu sei que você adora. Já é um bom presente de aniversário.
_Ah, tia, eu só queria que minha mãe passasse comigo. Ela está trabalhando muito nos últimos dias, e nos vemos tão pouco.
_É, ela precisa, meu filho. Mas é assim mesmo. Vamos embora.
Já no carro, enquanto Charlie e João brincavam de Super Trunfo Automóveis, a Tia Carla lembrou-se de um detalhe:
_Charlie, eu já liguei para a pizzaria e mandei fazerem essa nova pizza de presente pra você. Então, assim que chegarmos lá, você fecha seus olhos e Joãozinho te guia pela pizzaria, para a pizza ser uma surpresa. Que tal?
Charlie gostou da idéia da surpresa e agradeceu à tia por isso.
Chegando da Pizza Hut, Charlie colocou as mãos no ombro de João, fechou seus olhos, e foi andando pela escuridão até que o primo parou e mandou ele abrir os olhos.
_SURPRESAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!!!!!!!!!!!!!!!!!
Eram muitas vozes gritando a palavra "surpresa" naquela hora, mas todas pareciam uma só. Quando Charlie abriu os olhos, a primeira pessoa que ele viu foi a que ele mais queria que estivesse ali. Sua mãe.
Muitos rostos amigos e parentes estavam lá também, e a surpresa de Charlie foi muito grande. Amigos de colégio, também. Até o pai, que morava e trabalhava em outra cidade, veio só para o aniversário dele.
Ganhou muitos presentes, tirou muitas fotos e brincou muito nos brinquedos da Pizza Hut. Assoprou o bolo entre o pai e a mãe, fez um pedido que até hoje só ele sabe, e aquele ficou marcado em sua memória como o melhor aniversário de sua infância.


P.S.1 - Minha filha de oito anos queria escrever uma história comigo, quando descobriu, através da mãe dela, que eu escrevia esse blog. Pois ela chegou com o personagem principal e um argumento e virou essa historinha infantil aí. Que lindo, não?
PS.2 - A quem chegou até aqui, agradecido.

Sunday, November 25, 2007

Inacabado (Ficção)

Uma cerveja eu conseguiria em qualquer lugar. Até num supermercado.
Mas fui no Bar. Local público, cheguei e fui entrando. Estava mais vazio que de costume.
Aliás, eu era o único freguês. Não sei dizer se outras pessoas já beberam lá.
A lourinha limpava o chão com um pano e um rodo. Bonitinha até, não sei dizer se era a mesma de quando eu fui a última vez. Depois de tantos anos, pensei que não fosse. Mas ela me chamou pelo nome:
"-Você, aqui? Quanto tempo!" - era um clichê. Talvez tivesse treinado com o dono a recepção calorosa.
Sentei no banqinho alto, rente ao bar, e peguei minha cerveja. Ela me olhava e eu fingia que não via. Queria fugir de uma possível "carona pra casa", até porque eu não tinha carro. Mas não era nada disso. Me passou um papelzinho dobrado, talvez rasgado de um caderno: "É seu?"
Não era meu.
Mesmo assim, ela soltou no bar. Peguei o papel dobrado. Desdobrei.
Minha letra me dizia alguma coisa. Um monte de números. Um telefone, eu acho. Um nome, tenho certeza.
O papel não era meu, eu não tinha anotado aquilo. Comprei uma ficha no bar e fui ligar.
Perguntei pelo nome anotado em cima do número. Era o mesmo nome da minha ex-namorada. Um anagrama de três letras, duas delas iguais. A resposta não foi calorosa:
"-Ela não quer falar com você."
Ela não queria falar comigo, por isso, desliguei. Dei de ombros e deixei pra lá. Voltei para o bar atrás de outra cerveja, dobrei o papel novamente e joguei de volta no balcão.
"Porque aquela porra tinha minha letra?" - pensei entre um gole e outro na long neck.
Encarei o papel dobrado durante alguns goles.
Peguei-o novamente. Outra anotação agora estava ali. Outro telefone, um nome diferente. Um nome igual a de um ex-amigo.
Primeiro uma ex-namorada, depois, de um ex-amigo. Assuntos inacabados com ambos. Aquele pedaço de papel listrado arrancado de um caderno de segunda queria me dizer algo.
Liguei para o ex-amigo. Ele também não queria falar comigo. Era hora da terceira cerveja.



PS.1 - Termino depois. Obrigado pela leitura.

Thursday, November 08, 2007

De Mal a Mar (Ficção)

O carro hibernava na garagem. O motor quente denunciava o recente retorno. Seria de estranhar que o rapaz entrasse novamente no automóvel, mas era isso que fazia agora. Precisava levá-la a uma pizzaria. Se ela queria, era o suficiente.
Já sabia há muito tempo que estava apaixonado. Teve o prazer da apresentação através de amigos em comum e fez por onde se aproximar dela. Pediu telefone, chamou-a para sair. Estava fácil conquistá-la e o porquê era óbvio. Era pra ser assim.
Já no primeiro encontro o amor do rapaz desabou. Saíram juntos numa noite clara de sábado para encontrar os tais "amigos em comum". Na conversa, secreta aos outros, ela foi direta e afiada, como um bisturi: "Quero ser só sua amiga".
O resto da noite do rapaz foi uma sequência de sorrisos amarelos e risadas desconexas - hora insuficientes, hora exageradas. Tudo a fim de ocultar sua incredulidade na sentença da "garota perfeita". Ela, por sua vez, agia sem o menor desconforto: ria em compasso com os demais, compartilhava as piadas e participava das conversas. Em uma ou duas ocasiões, ainda o abraçara, cúmplice. Estava confuso. Não podia ser; ela só queria conhecê-lo melhor. Devia ser, a amizade, apenas uma desculpa.
Mas cada nova tentativa romântica foi frustrada. Ele mandou mensagens pelo celular e esperou respostas que nunca chegaram. Convites para sair ela aceitava; ao primeiro sinal de declaração, a mesma conversa sobre namoro estragar a amizade se contruía numa barreira entre os dois. Seu prêmio de consolação foi aceitar a amizade. Bastava-lhe estar junto dela.
Assim o rapaz se iludiu. Decerto que a ilusão durou pouco: logo retornaram as mesmas juras de amor eterno. Junto, veio a contrapartida: os discursos sobre a amizade ser inimiga do namoro.
Seus sentimentos, agora maiores e mais intensos, o impediam de fazer qualquer coisa. Nas aulas da faculdade, não se concentrava; em casa, andava pela madrugada do apartamento no escuro total em busca de uma resposta para a rejeição impensável. Não concebia sua devoção e seu amor sincero serem jogados fora como lixo.
Ele não merecia isso. Não ele. Ela precisava entender. Algo precisava ser feito. O amor não era inútil. Não era lixo para ser dispensado. O amor dele era importante.

Era uma dessas madrugadas emotivamente pensativas.
Ela, sem sono e com muita confiança na disponibilidade do amigo, ligou.
O rapaz atendeu, esperançoso. Algo poderia ser diferente agora.

Mas não era. Uma conversa para passar o tempo, para dar sono, a garota deixou claro. Divagou sobre a vida, sobre acontecimentos do dia a dia. Ele ouvia, atentamente; concordava. Afinal, seu amor não era inútil.
Ela mencionou vontade de comer. De comer pizza.

Deu-se o estalo: levaria uma pizza, de presente. Melhor ainda: a levaria para comer uma pizza. Sugeriu e ela adorou.
Dessa vez tudo seria diferente; ele diria de outra forma, a convenceria. Mostaria o que era óbvio: que ambos foram feitos pra ser mais do que amigos. Era tão simples, tão trivial, tão lógico. Ela aceitá-lo, dizer uma palavra, um gesto de aceitação e pronto. Tudo estaria certo. Só isso.
O carro hibernava na garagem. O motor quente denunciava o recente retorno. Seria de estranhar que o rapaz entrasse novamente no automóvel, mas era isso que fazia agora. Precisava levá-la a uma pizzaria.
Chegou no prédio-destino; a garota o esperava já embaixo. Linda, coloria a noite, que até então era pintada em tons sépia pelas velhas lâmpadas dos postes.
Ele mal podia esperar. Dentro do carro, levando-a em direção à pizzaria, disse-lhe (mais uma vez) que a amava. Ela, saturada, o enfrentou: era esse o único motivo de irem à pizzaria? Se fosse, podiam dar meia volta.
Claro que era . E por que seria, então?
Agora ela sabia que a amizade era impossível.
Agora ele sabia que o amor era impossível.

O que fazer? O carro seguia por uma extensa ponte, que ligava uma metade da cidade à outra. Lá embaixo, o escuro do mar poluído.
Seu amor não seria inútil. Algo precisava ser feito. Seu amor não era lixo para ser jogado fora. Ela precisava entender.

Girou a direção, de uma vez. O carro derrapou e, de lado, capotou duas vezes no ar, voando por cima da proteção lateral da ponte. Ao se chocar com a água, abriu uma fenda espumada na escuridão que cobria o mar. O carro, indefeso, afundou.
Ele a fez entender: afogou-a em seus sentimentos poluídos.


P.S. 1: Agradecido.

Sunday, October 28, 2007

O post aqui publicado foi excluído (chamava-se Carta para Ela ou algo assim)

Sim, o post aqui publicado foi excluído, caro leitor. Deletado, para provavelmente nunca mais ser publicado em toda sua história, pelos motivos justificados adiante.

Não que fosse um post desimportante; o problema é que só tinha importância para as partes interessadas. Qualquer esforço seu de se aventurar pelas linhas previamente digitadas aqui se converteria em um esforço de pura inutilidade intelectual.
Não que fosse um post mal escrito, muito pelo contrário. Estava muito bem escrito (modéstia à parte). Talvez tenha sido o que melhor eu escrevi (em termos literários mesmo) em toda a minha vida. Duplos sentidos, estavam lá. Ambigüidades, metáforas, sentimento sincero e bem descrito, tudo. Inclusive um pouco de presunção, também. Estava tão bom que, justamente por isso mesmo, se tornava um desperdício.
Era um desperdício da minha melhor escrita. Um desperdício porque usei isso em algo que eu simplesmente não quero escrever. Eu quero e gosto de escrever ficção, aquela que tem no título do blog. Fingir, criar, iludir, fazer parecer verdade o que não é. Te tirar um pouco desse mundo, caro leitor e, quando você voltar, perceber que o que você lia era uma mentira. Uma mentira bem escrita. Esse é o meu desafio.
Aos que sempre me perguntam, a resposta para eu nunca ter feito jornalismo pode ser essa: escrever a verdade não me interessa - embora às vezes eu o faça (vide alguns textos de opinião que tem aqui no blog) . Caso você lesse a "Carta para Ela", provavelmente se interessaria menos ainda. Ainda se, por algum acaso do destino, o que aqui jazia fosse algo que te despertasse a mínima atenção, sinto muitíssimo. Simplesmente nunca lerás.

P.S. 1: Tirando os noves fora, esse texto também foi um exercício de pura inutilidade intelectual. Minha melhor literatura ainda está por vir (espero auehaeuhaeuh).
P.S. 2: Aos poucos que leram antes, quando era realmente uma carta: obrigado. Aos poucos que lerão daqui pra frente, obrigado também.
P.S.3: Nem sei se posso chamar qualquer coisa que escrevo de literatura. Mas um dia eu chego lá.

Wednesday, October 24, 2007

Impressões (Ficção)

Ele:
Tenho que sair com ela de novo. Que gata. Peitões assim, ó. Que bunda maravilhosa. Corpão, corpão. O que ela estuda mesmo?
Rimos demais do cara que caiu quando o ônibus freiou. Que comédia. Como é que alguém não se segura sabendo que o busão freia daquele jeito? Coroa idiota.
Ah, mas ela era maó linda, na vera.Tem umas conversas de menina mesmo, mas fazer o quê? Ainda gosta de quadrinho japonês, diga aí!
Normal, fez vinte anos quase agora. Se bem que eu também tenho 20 anos e nunca nem gostei de mangá. Só de mangar dos outros mesmo. Inclusive dos amigos dela, uns otários.
Que beijo gostoso que a gente deu. Maior tesão. Peguei geral, assim, pegada mesmo, pra ela sentir. Será que na próxima vez eu consigo fazer ela tirar a roupa?


Ela:
Ai, ai, foi demais. Lindo... Inteligente, ele. Faz Direito na federal.
Muito bem humorado. Fora aquela hora do senhor no ônibus, ali não conseguimos mesmo segurar a risada, que maldade. Não era nenhum velho, devia ter uns 40 anos, mas mesmo assim, nada a ver.
Concordamos em tudo. Ele disse que também gosta de mangá. Não conhece Kare Kano, como é que pode? Vou levar uma revista pra ele, na próxima vez...Se tiver próxima vez, né? Ele pareceu gostar, mas esses meninos, parecem que só querem ficar.
Se deu super bem com meus amigos, os que encontramos lá no shopping. Quando eu fui comprar um refrigerante, deixei eles lá conversado, se deram muito bem. De longe eu só via ele rindo...E o beijo? Gente, o que foi aquilo? E a pegada dele, aff! Ainda bem que estávamos no shopping, se a gente tivesse sozinho, ia ser hoje mesmo...


Ps.1: Mangá: Nome mais popular dado aos quadrinhos japoneses. Febre da juventude atual e prova de que nosso futuro é sombrio.

Friday, October 12, 2007

...Do Jeito que as Pessoas Conhecem Pessoas... (Ficção)

A aeromoça o acordara com uma leve carícia no ombro e um sorriso muito amígável, chamando-o de senhor e avisando que o lanche estava sendo servido. Ele, sem entender direito o que se passava, se ajeitou na poltrona e a moça fez um movimento com as mãos que desceu a bandejinha de plástico fixada na poltrona à frente da dele. O suporte deslizou em sua coreografia usual parando na horizontal a centímetros dos joelhos de Felipe. A loura de olhos verdes e sorriso estático colocou um recipiente plástico com um sanduíche envolto em filme tranparente dentro. Ele ía do Rio de Janeiro a Recife, num vôo vespertino sem escalas, e não tinha almoçado antes de embarcar. O sanduíche, embora sem graça (pão integral com uma fatia de queijo coalho crua dentro), parecia uma boa pedida.
_"Para beber, o senhor aceita o quê? "- perguntou a bela aeromoça com sua bela voz de um tom calculado, semelhante às das atendentes de telemarketing.
_"Coca-Cola mesmo." - disse Felipe, pensando na cafeína.
Meneeou a cabeça de lado afim de estalar as juntas do pescoço e deu a primeira mordida. Mastigando, olhou acima de sua poltrona um grupo que conversava animado, todos trajando calças jeans e leves camisas de algodão com uma bela logomarca na frente e diversas propagandas atrás. Agora um gole na lata de Coca, tornou a olhar o grupo, e logo sua atenção foi direcionada para uma garota de rosto branquíssimo e cabelos negros e ondulados que gargalhava despreocupada. Estava sentada de lado no braço de uma poltrona, com os pés descalços no assento da mesma, de maneira visivelmente desleixada e displicente. Dando outra mordida, ele se perguntou se ela não estaria infringindo alguma regra do avião e em quanto tempo a aeromoça iria advertí-la, mas nem a aeromoça apareceu e nem ela sentou corretamente. Apenas gargalhava com seus lábios carnudos e seus dentes perfeitos jogando a cabeça pra trás, quando algum dos outros 4 integrantes do grupo dizia algo. Uns estavam em pé, outros sentados errados em suas poltronas, de modo que formavam um animado círculo que tanto poderia estar ali quanto no meio de uma calçada em qualquer cidade do mundo.
Mas fora ela quem chamara a atenção de Felipe. E continuava chamando enquanto ele terminava a refeição descartável (como tudo em um avião), até que ele resolveu ir ao banheiro. Se levantou e foi andando em direção à animada turma, que se afastou para dar-lhe passagem, e ao mesmo tempo, ela se levantou e foi atrás, como se o seguisse. Fingindo não notar a presença dela andando atrás dele, ele continuou se esqueirando entre as poltronas e parou em frente à porta do banheiro descartável. Notou que estava ocupado e parou. Não agüentou e virou-se. Ela o olhou com desdém, uma leve estudada nele enquanto mastigava o chiclete. E ele a olhava, fascinado.
Não devia ter mais de 25 anos. Olhava para ele e tudo ao redor como se não visse nada de especial. Seus olhos bem pretos, brilhavam como ônix, e corriam todo o cenário tranqüilamente. Seu nariz era pontudo e bem desenhado. Acima da narina esquerda, tinha um piercing pequenininho com um brilhante minúsculo, que facilmente poderia ser confundido com um sinal por um olhar desatento. Seus lábios, além de carnudos, se projetavam para a frente dando a impressao de sua boca ser mais vermelha do que as outras bocas, provavelmente pelo contraste com o branco do rosto. Não usava batom. Sua camisa brança básica da Hering tinha a logomarca que todo o grupo usava, e que agora ele via bem: Intrumentos de percussão como que pintados e abaixo um nome em letras garrafais: Grupo de Percussão Atabaque.
_"Tá gostando do que tá vendo?" - uma voz feminina o tirou dos pensamentos.
Ela o encarava entre o sério e o escárnio, o que o impelia a responder. Felipe se tocara de que, ao ler os dizeres na camisa dela, também olhava em direção aos seus seios.
_"Não, não era isso que eu estava olhando" - tentou se desculpar, sem graça - "eu estava lendo o nome do Grupo que você e seus amigos fazem parte..."
_"É o que todo o mundo diz..." - ela fez uma expressão sarcástica. - "...estou só tirando uma onda com a sua cara. Deve estar com dor de barriga, né?"
_"Hein?" - Felipe balbuciou, rosto incrédulo, sem saber o que dizer.
_"O cara dentro do banheiro, que tá fazendo a gente esperar" - apontou com a cabeça - "faz uma meia hora que está aí. Deve estar com dor de barriga pra demorar tanto" - e riu baixinho.
_"Ah bom..." Felipe disse. "É, deve estar sim... Mas você pode ir quando ele sair, eu não me importo." - tentou ser gentil, sem sucesso.
_"Ah, só pra eu ter que respirar o cheiro do cocô dele todo pra você, né?" - ela disse, e gargalhou uma de suas risadas gostosas. Ele não aguentou e riu também.
_"Não foi bem isso que eu quis dizer... só queria ser legal.. Mas não precisa se não quiser..."
_"E sentir o cheiro do seu, então?" - ambos riram novamente.
Silêncio. Mais silêncio. Constrangedor. Ele começava a pensar no que dizer ou no que perguntar. Ia perguntar o nome dela, quando:
_"Sabe, pela demora dele, acho melhor você ir na frente mesmo" - e riu descontroladamente.
_"Não foi isso que eu quis...."
_"Dizer?" - ela completou - "eu sei seu bobo. Estava apenas tirando..."
_"Uma onda com a minha cara?" - agora era vez dele completar.
Ela sorriu, olhando-o nos olhos, como se procurasse algo:
_"É, exatamente".
O ocupante da cabine sai nessa mesma hora e, ao notar as duas pessoas esperando, olha pra baixo. Ela, baixinho:
_"Olha, o cagão saiu."
Ele não aguenta e cai na gargalhada; ela mantém a cara irônica, com um sorriso simpático estudando a risada dele.
_"Agora a senhorita pode ir" - ele falou em tom solene, como um porteiro de um hotel luxuoso.
_"Pois a senhorita odeia machismo, e como você chegou primeiro, vai primeiro." - sentenciou.
_"Há uma certa diferença entre machismo e gentileza..." ele soltou, baixinho. Ela fez uma expressão indignada pelo desafio:
_"Você daria a vez para um amigo seu que tivesse chegado depois?" - ela inquiriu.
Felipe pensou, olhou-a com cara de vencido e falou:
_"Ok, não daria. Você venceu. Satisfeita?"
_"Não, não estou satisfeita, porque vou ter que segurar o xixi mais um pouco. Mas, é o justo."
_"E qual é o nome da senhorita 'justiceira'?"
_"Lorelai."
_"Tá brincando? Que nem a da Gilmore Girls?" - ele perguntou, incrédulo.
_"Não, que nem a minha avó. Era o nome dela. E se você não for, eu vou" - disse, apontando para o banheiro.
_"Ah, desculpe. Vou sim." Seu tom era resignado...
_"Quando você sair conversamos mais." - ela sorriu.
Ele sorriu e entrou na cabine. Saiu instantes depois, tendo mentalizado exatamente o que diria:
_"Estou sentando naquela poltrona" - e apontou. "Vai lá depois que sair."
Ela riu:
_"Ok, vou sim".
_"E lave as mãos". - Ele levantou a sobrancelha sorrindo, desafiador.
Ela riu.


Felipe estava sentado na sua poltrona, lendo o jornal do dia entregado pela aeromoça loura. Fingiu não a ver sair do banheiro, chegar nos amigos, dizer algo e passar por eles, para sentar-se no assento vazio ao seu lado, de supetão.
_"Quer cheirar pra ver se lavei?" - disse ao se jogar.
_"Eu confio em você" - ele afastou o rosto, com nojo fingido.
_"Não vai se arrepender. Sou muito verdadeira."
_"Não duvido" - ele sorriu. Olhou-a nos olhos. Ela retribuiu por um instante, depois baixou o olhar. Ele começou a pensar que não conhecera ninguém como ela até então, mas teve seus pensamentos cortador por...
_"E você, pelo sotaque, não é de Recife. Tá indo a trabalho, né?" - ela piscou.
_"E você descobriu isso..."
_"Pelo terno. Quem é que viaja de terno, pelo amor de Deus? Tem que ser muito mauricinho" - e gargalhou. Felipe riu junto.
_"Vou te dizer quem viaja vestido assim: quem, ao sair do avião, vai ter um encontro com um cliente muito importante da empresa de contabilidade para o qual ele trabalha." - ele disse com falsa raiva. Ela faz cara de espanto e disse:
_"Mas como é importante ele, meu Deus. Um perfeito executivo." - e riu sarcastimamente. Pelo visto, zoar com ele era um bom passatempo. Era vez dele tentar o truque.
_"Muito bem: você e seus amigos ali estão voltando pra Recife após uma apresentação no Rio, talvez para acompanhar o show do Carlinhos Brown que teve semana passada". Fez uma cara de "que tal?"
_"Acertou e errou. Fizemos uma apresentação, sim, mas o Carlinhos Brown é baiano, e além disso, deve ter quem o acompanhe. Apenas fomos a um encontro de Grupos de todo o Brasil."
_"É, a do Carlinhos Brown eu chutei mizeravelmente mal, só falei porque sei que ele tocou com o Olodum uma vez, no carnaval, não foi? Mas foi uma boa aposta, caso eu tivesse acertado."
_"Um chutasso. Mas foi fora."
Sorriram. A conversa continuou no mesmo pé. Ela falava, ele ria, ele falava, ela ria. Às vezes, riam juntos. Estavam se dando muito bem; ela era boa de papo, ele adorava uma conversa. Mas era mais que isso. Havia uma sintonia, apesar da diferença visivel das vidas que levavam. O comandante do avião pediu a palavra pelo speaker e avisou que em breve aterrisariam no Aeroporto Internacional dos Guararapes.
Se entreolharam ao notar que o tempo passou mais rápido que puderam perceber. A noite brilhava pela janela do avião e logo ele teria um jantar; Ela, iria para o apartamento alugado pago pelo pai que a esperava, sozinho.
Ele não teve dúvidas: beijou-a profundamente na boca. Foi um beijo meio desajeitado, por não ser calculado nem esperado, mas ela não protestou; entregou-se profundamente, suas línguas se enroscaram freneticamente no escondido da boca. Se beijaram e se beijaram, até que o fôlego de Lorelai acabou e deixou Felipe querendo mais. Ela sorriu:
_"É, até que o executivo beija bem..."
_"Eu não sou um executivo. É apenas o que eu faço." - ele disse sério.
Ela fez cara de espanto:

_"Uuuuhhhhh, peguei na ferida!" - e riu uma de suas risadas, deliciosas ao ouvido de Felipe.
_"Onde o senhor executivo vai ficar?"

_"Não sei ainda, vou procurar um hotel. Recomenda algum?"
Ela disse o nome de um hotel que ficava perto (não tão perto assim) do apartamento dela. Ele pediu-lhe seu telefone. Ela deu. Ela perguntou quanto tempo ele iria ficar. Ele respondeu.
E veio o frio na barriga: o avião estava descendo. Logo se separariam. Ela disse:
_"Vou falar ao pessoal que os encontro na parte da bagagem; temos que pegar os intrumentos. A gente desce junto, ok?"
Um minuto depois estavam todos do avião em pé. Ela se encontrava com ele, que a esperava em pé em frente a sua poltrona, com uma maleta 007 na mão. Ela não perderia a oportunidade:
_"Além de tudo, quer ser o James Bond". Os dois riram.
Desceram a escada do avião e ele sentiu pela primeira vez o odor "peculiar" da cidade. Estranhou; ela riu. "Você se acostuma" disse, mas teve a voz abafada pelo som dos aviões na pista. Quando entraram na sala de bagagens, esperaram as malas. A esteira trouxe a dele, que ele pegou. Olhou o relógio: estava em cima da hora, era preciso ir.
_"Tá na minha hora" - falou com seu sotaque carioca. Ela compreendeu.

Se beijaram profundamente. Ele falou:
"_Te ligo."
"_Liga nada" - ela disse, o empurrando em direção à porta. Se virou para a esteira que traria em breve, os instrumentos empacotados de seu grupo. Viu seus amigos de longe e correu em direção a eles, sem olhar pra trás.
Ele assitiu tudo isso enquanto entregava o bilhete da bagagem para ser conferido pelo funcionário do aeroporto. Saiu pela porta, entrou num taxi e foi aos negócios.

Friday, October 05, 2007

Histórias reais da vida surreal (Não sei se é ficção ou não, achei isso por aih...)

Depoimento verdadeiro da primeira expêriencia desta técnica de tortura por qual as mulheres passam...e alguns metrosexuais também...


- "Tenta sim. Vai ficar lindo."
Foi assim que decidi, por livre e espontânea pressão de amigas, me render à depilação na virilha. Falaram que eu ia me sentir dez quilos mais leve. Mas acho que pentelho não pesa tanto assim. Disseram que meu namorado ia amar, que eu nunca mais ia querer outra coisa. Eu imaginava que ia doer, porque elas ao menos me avisaram que isso aconteceria. Mas não esperava que por trás disso, e bota por trás nisso, havia toda uma indústria pornô-ginecológica-estética.
- "Oi, queria marcar depilação com a Penélope.
- "Vai depilar o quê?"
- "Virilha."
- "Normal ou cavada?"
Parei aí. Eu lá sabia o que seria uma virilha cavada. Mas já que era pra fazer, quis fazer direito.
- "Cavada mesmo."
- "Amanhã, às... deixa eu ver...13h?"
- "Ok. Marcado."
Chegou o dia em que perderia dez quilos. Almocei coisas leves, porque sabia lá o que me esperava, coloquei roupas bonitas, assim, pra ficar chique.
Escolhi uma calcinha apresentável. E lá fui. Assim que cheguei, Penélope estava esperando. Moça alta, mulata, bonitona. Oba, vou ficar que nem ela, legal. Pediu que eu a seguisse até o local onde o ritual seria realizado.
Saímos da sala de espera e logo entrei num longo corredor. De um lado a parede e do outro, várias cortinas brancas. Por trás delas ouvia gemidos, gritos, conversas. Uma mistura de Calígula com O Albergue. Já senti um frio na barriga ali mesmo, sem desabotoar nem um botão. Eis que chegamos ao nosso
cantinho: uma maca, cercada de cortinas.
- "Querida, pode deitar."
Tirei a calça e, timidamente, fiquei lá estirada de calcinha na maca. Mas a Penélope mal olhou pra mim. Virou de costas e ficou de frente pra uma mesinha. Ali estavam os aparelhos de tortura. Vi coisas estranhas. Uma panela, uma máquina de cortar cabelo, uma pinça. Meu Deus , era O Albergue mesmo. De repente ela vem com um barbante na mão. Fingi que era natural e sabia o que ela faria com aquilo, mas fiquei surpresa quando ela passou a cordinha pelas laterais da calcinha e a amarrou bem forte.
- "Quer bem cavada?"
- "...é ... é, isso."
Penélope então deixou a calcinha tampando apenas uma fina faixa da Abigail, nome carinhoso de meu órgão, esqueci de apresentar antes.
- "Os pêlos estão altos demais. Vou cortar um pouco senão vai doer mais ainda.
- "Ah, sim, claro.
Claro nada, não entendia porra nenhuma do que ela fazia. Mas confiei. De repente, ela volta da mesinha de tortura com uma espátula melada de um líquido viscoso e quente (via pela fumaça).
- "Pode abrir as pernas."
- "Assim?"
- "Não, querida. Que nem borboleta, sabe? Dobra os joelhos e depois joga cada perna pra um lado."
- "Arreganhada, né?"
Ela riu. Que situação. E então, Pê passou a primeira camada de cera quente em minha virilha virgem. Gostoso, quentinho, agradável. Até a hora de puxar. Foi rápido e fatal. Achei que toda a pele de meu corpo tivesse saído, que apenas minha ossada havia sobrado na maca. Não tive coragem de olhar. Achei que havia sangue jorrando até o teto. Até procurei minha bolsa com os olhos, já cogitando a possibilidade de ligar para o Samu. Tudo isso buscando me concentrar em minha expressão, para fingir que era tudo supernatural.
Penélope perguntou se estava tudo bem quando me notou roxa. Eu havia esquecido de respirar. Tinha medo de que doesse mais.
- "Tudo ótimo. E você?"
Ela riu de novo como quem pensa "que garota estranha". Mas deve ter aprendido a ser simpática para manter clientes.
O processo medieval continuou. A cada puxada eu tinha vontade de espancar Penélope. Lembrava de minhas amigas recomendando a depilação e imaginava que era tudo uma grande sacanagem, só pra me fazer sofrer. Todas recomendam a todos porque se cansam de sofrer sozinhas.
- "Quer que tire dos lábios?"
- "Não, eu quero só virilha, bigode não."
- "Não, querida, os lábios dela aqui ó."
Não, não, pára tudo. Depilar os tais grandes lábios ? Putz, que idéia.
Mas topei. Quem está na maca tem que se fuder mesmo.
- "Ah, arranca aí. Faz isso valer a pena, por favor."
Não bastasse minha condição, a depiladora do lado invade o cafofinho de Penélope e dá uma conferida na Abigail.
- "Olha, tá ficando linda essa depilação."
- "Menina, mas tá cheio de encravado aqui. Olha de perto."
Se tivesse sobrado algum pentelhinho, ele teria balançado com a respiração das duas. Estavam bem perto dali. Cerrei os olhos e pedi que fosse um pesadelo. - "Me leva daqui, Deus, me teletransporte". - Só voltei à terra quando entre uns blábláblás ouvi a palavra pinça.
- "Vou dar uma pinçada aqui porque ficaram um pelinhos, tá?"
- "Pode pinçar, tá tudo dormente mesmo, tô sentindo nada."
Estava enganada. Senti cada picadinha daquela pinça filha da puta arrancar cabelinhos resistentes da pele já dolorida. E quis matá-la. Mas mal sabia que o motivo para isso ainda estava por vir.
- "Vamos ficar de lado agora?"
- "Hein?"
- "Deitar de lado pra fazer a parte cavada."
Pior não podia ficar. Obedeci à Penélope. Deitei de ladinho e fiquei esperando novas ordens.
- "Segura sua bunda aqui?"
- "Hein?"
- "Essa banda aqui de cima, puxa ela pra afastar da outra banda."
Tive vontade de chorar. Eu não podia ver o que Pê via. Mas ela estava de cara para ele, o olho que nada vê... Quantos haviam visto, à luz do dia, aquela cena? Nem minha ginecologista. Quis chorar, gritar, peidar na cara dela, como se pudesse envenená-la. Fiquei pensando nela acordando à noite com um pesadelo. O marido perguntaria:
- "Tudo bem, Pê?"
- "Sim... sonhei de novo com o fiofó de uma cliente."
Mas de repente fui novamente trazida para a realidade. Senti o aconchego falso da cera quente besuntando meu twin peaks. Não sabia se ficava com mais medo da puxada ou com vergonha da situação. Sei que ela deve ver mil cús por dia. Aliás, isso até aliviava minha situação. Por que ela lembraria justamente do meu entre tantos? E aí me veio o pensamento: peraí, mas tem cabelo lá?
Fui impedida de desfiar o questionamento. Pê puxou a cera. Achei que a bunda tivesse ido toda embora. Num puxão só, Pê arrancou qualquer coisa que tivesse ali. Com certeza não havia nem uma preguinha pra contar a história mais. Mordia o travesseiro e grunhia ao mesmo tempo. Sons guturais, xingamentos, preces, tudo junto.
- "Vira agora do outro lado."
Porra.. por que não arrancou tudo de uma vez? Virei e segurei novamente a bandinha. E então, piora. A bruaca da salinha do lado novamente abre a cortina.
- Penélope, empresta um chumaço de algodão?
Apenas uma lágrima solitária escorreu de meus olhos. Era dor demais, vergonha demais. Aquilo não fazia sentido. Estava me depilando pra quem?
Ninguém ia ver o tobinha tão de perto daquele jeito. Só mesmo Penélope. E agora a vizinha inconveniente.
- "Terminamos. Pode virar que vou passar maquininha."
- "Máquina de quê?!"
- "Pra deixar ela com o pêlo baixinho, que nem campo de futebol."
- "Dói?"
- "Dói nada."
- "Tá, passa essa merda..."
- "Baixa a calcinha, por favor."
Foram dois segundos de choque extremo. Baixe a calcinha!!!...como alguém fala isso sem antes pegar no peitinho? Mas o choque foi substituído por uma total redenção. Ela viu tudo, da perereca ao cú. O que seria baixar a calcinha? E essa parte não doeu mesmo, foi até bem agradável.
" - Prontinha. Posso passar um talco?"
- "Pode, vai lá, deixa a bicha grisalha."
- "Tá linda! Pode namorar muito agora."
Namorar...namorar... eu estava com sede de vingança. Admito que o resultado é bonito, lisinho, sedoso . Mas doía e incomodava demais. Queria matar minhas amigas. Queria virar feminista, morrer peluda, protestar contra isso. Queria fazer passeatas, criar uma lei antidepilação cavada.

Texto de autoria desconhecida.

P.S.1: Postei por achar o tipo de coisa que eu escreveria se fosse mulher e, apesar disso, não fui eu que escrevi. Juro.
P.S.2: Eu sei que vai ter gente dizendo sarcasticamente que é a melhor coisa que eu escrevi.
P.S.3: Não, não resolvi dar uma de Chico Buarque.

Thursday, September 27, 2007

Amor nos Tempos da Virose

Já notou que hoje em dia quando vamos ao médico, sempre é "virose"? Não existe mais exame pra descobrir a causa de porra nenhuma. Tá com caganeira? É a virose! Tá vomitando? Virose, bixim. Espirrando, garganta inflamada, e febre? V-I-R-O-S-E.
A vida dos médicos nunca foi tão fácil.
Por outro lado, a do amor cada vez mais difícil. Reportagens e mais reportagens mostram como pessoas se conheceram através de salas de bate-papo, moravam em outras cidades ou até países, namoraram pela webcam durante um tempão, juntaram dinheiro, fizeram do objetivo pessoal se conhecerem, se casarem e viverem felizes para sempre. Será? Não existe estudo sobre os índices de divórcio de casais que se conheceram on-line. Só casais no geral, e esse índice não pára de subir.
Existem também os casos de pessoas que só, única e exclusivamente, SÓ (repito) se relacionam pelo computador e/ou telefone. Sério, juro. Tudo, tudo, só pelo computador. Imagina aí:
"Bota a dita-cuja na webcam que eu vô afogar meu ganso!!!" (calma, tô só zuando). Mas de qualquer maneira, isso não pode dar certo, é naturalmente impossível. Mas quem sou eu?...
Sou quem acredita que o corpo-a-corpo é fundamental. Não me chamem de hipócrita, já que devo ter conhecido centenas de mulheres pela internet e isso é de conhecimento público. Mas quando falo que "conheci mulheres" ou em "corpo-a-corpo" nem é da parte sexual que tô falando não. Conheci amigas mesmo, pessoas que tenho longas e sinceras amizades.
Quero dizer é que acredito na potencialidade que a rede tem de juntar pessoas que normalmente não se conheceriam, nem no círculo de amigos, ou de colegas, ou na faculdade/trabalho/escola - tudo bem, admito que pra alguns já é sintoma de nerdice pura. Mas viver a vida assim? Como os personagens de "Amor nos tempos do Cólera", do Garcia-Márquez, que passam 53 anos se correspondendo e quando se conhecem morrem logo depois? Qual a lógica de terem se relacionado, então?
Como escrevi lá em cima, não tô falando só do sexo não, como vão me acusar amanhâ. Estou falando dos carinhos, dos olhares, do passeio na praia, do filme na terça-feira de noite, de um curar a bebedeira do outro, das risadas (ah, as risadas apaixonadas...), eu poderia escrever horas sobre tudo isso que faz um relacionamento, e que tem como pré-requisito a presença de outra pessoa. E não essa masturbação sentimental (sentimental, hein?) que é ter de ficar horas na frente de uma tela pra namorar, contas telefônicas homéricas, confissões amorosas
no msn escritas errado (escritas errado tá certo?). Sem contar o risco de, quando for rever a pessoa tempos depois, ela ter engordado muito, ou emagrecido por demais. Hoje em dia, até onde eu sei, a pessoa pode até ter mudado de sexo (coisas da tecnologia).
Se "antigamente" as pessoas se conheciam cara a cara, passavam anos namorando, mais anos ainda noivas, e ao se casar descobriam que não se conheciam, imagina noivar - como testemunhei - pela internet, com alguém que se vê uma vez por ano e que mora em outro país. Sei não...
Vai ver é uma virose, hein, Doutor?

P.S.1: Lá foi outra redação de colégio. Agüente quem puder. E com trema.
P.S.2: Notem: "Morte à Crase" ou "Morte a Crase". Viram? Não mudou o sentido em nada. Isso prova que a crase é desnecessária, portanto, morte a crase :-P
P.S.3: A crase não tem nada a ver com a crise. Primeiro decidam como resolver o país. Como vão escrever, senhores gramáticos, decidam depois. É só ver nessa redação aí em cima que não precisa-se escrever bem para ser compreendido. Compreendeu?

Wednesday, September 19, 2007

Era da Desinformação

Nessa auto-proclamada era da informação, minha impressão é que as pessoas estão cada vez menos informadas. Correntes de emails se propagam como bactérias comedoras de carne ocupando o nosso tempo já escasso e as nossas caixas de email, agora com 2 giga - que devem ter essa capacidade toda justamente por causa dessas bactérias comedoras de bytes.
A criancinha com cancêr, que a AOL ou outro grupo vai rastrear o email e pagar 0,00000025 centavos de dólar para a família para cada email repassado. Já foi dito e redito pelas empresas citadas que, infelizmente, é lenda urbana, mas essa informação estranhamente não se passa por email.
Os corpos dilacerados de acidentes aéreos e/ou automobilísticos que, de alguma maneira vazam na rede mundial. Um motivo para a exploração da tristeza alheia - "ainda bem que não fui eu", muitos pensam, semse tocar que, na maioria das vezes, poderiam ter sido eles, sim. Ou ainda, motivo para uma lição de moral vazia, do tipo "não beba antes de dirigir" . Como se ninguém soubesse que não se deve beber antes de dirigir, e que não adianta nada - as pessoas continuam morrendo e matando bêbadas ao volante.
Os chatíssimos slides em ".pps" com uma auto-ajuda barata, que no assunto do email sempre tem "MUITO LINDO" assim, em letras garrafais. Palavras decartáveis esquecidas segundos depois que a pessoa repassa o email pras 450 pessoas de suas listas de contatos. Sem contar as que vem com um vírus filhadaputa que se apossa do seu pendrive quando você mais precisa dele.
E as correntes amorosas que te rogam pragas sinistras? "Repasse essa mensagem a pelo menos dez pessoas, senão o seu pinto vai cair essa noite" ou "se ignorar esse email, o diabo em pessoa vai te visitar hoje" ou ainda "repasse, ou você vai virar uma solteirona pro resto da vida". Ainda tem gente com a cara de pau de dizer "Deu certo comigo!!!" É mole?
Faço um apelo aos criadores dessas mensagens desinformativas. Meu apelo não é nem a quem as repassa, esses já não tem mais jeito. Só quem pode mudar isso é quem faz as mensagens. Acredito que façam isso com uma curiosidade mórbida de saber se as mensagens voltam para eles com um número elevado de emails, descobrindo egoísticamente as proporções de uma mentira. Tem outro jeito de fazer isso. Hitler mesmo disse que uma mentira dita 400 vezes se torna verdade. E Hitler se matou. Que tal? Ou então escreve um blog desse. O meu mermo é pra escrever mentira.
Por sinal, até esse meu texto pode virar uma dessas mensagens, caso algum gênio bolador desses emails leia, e pelo meu ultraje no parágrafo acima, ele vai criar alguma mentira ou algo assim para provar que essa mentira se torna verdade. Como o desgraçado do ditador lá fez. Acontece. Foda-se. Contanto que pare de propagar a desinformação.
Por mim, as mensagens de piadas podem continuar, junto com as que fazem algum apelo político, que, apesar de não adiantarem Pê Êne, pelo menos tentam. Os emails com as colunas do Luís Fernando Veríssimo e do Arnaldo Jabor também podem.


PS 1: Errata: Quem dizia a frase da mentira se torna verdade dita 400 vezes foi Goebbels, o encarregado das propagandas nazistas. E mesmo assim eu ainda não tenho certeza se foi...

Tuesday, August 28, 2007

O Clichê - Parte II (Ficção)

No último capítulo, nosso (anti?) herói saíra determinado a terminar seu relacionamento com a namorada. Após traí-la, viu que não tinha mais lógica em continuar namorando, por ter se apaixonado por outra, e essa outra em especial, ser a melhor amiga da sua atual namorada. Enquanto isso, a amiga traidora (chamada aqui de "Ela") ficara seminua na cama dele, enrolada numa toalha, em um dilema ainda pior: contar ou não a verdade, expondo assim a amiga a um sofrimento duplo ou então, viver uma mentira Será o desfecho desse clichê também um clichê? Não percam o fim dessa comum história.


Ele entrou no carro cabisbaixo, sem comprimentar o porteiro. Um pouco por desatenção, também um pouco por vergonha: o porteiro conhecia sua namorada, e o tinha visto subir com uma estranha algumas horas antes. Girou a ignição e ficou ali ouvindo o ronco do motor, encarando o volante, esperando um milagre. Como não teve milagre algum e nada mudou, acelerou rumo ao destino.
Ela não conseguia parar de pensar como a cama era confortável, ao passo que não perdia o frio na barriga que só aumentava. Pegou o controle da televisão, ligou-a, e zapeou todos os 68 canais da TV a cabo, até que voltou ao primeiro. E continuou assim por mais alguns minutos. Largou o controle e olhou sua roupa jogada na cabeceira, enroscada com a roupa dele, e lembrou-se de uma música do Chico Buarque que relatava algo parecido. O nome da música é Eu Te Amo.
Tentou colocar os sentimentos em ordem, se perguntar o que sentia pra tentar descobrir qual era o certo a fazer. Notou que não queria perder a amiga, notou que não queria perder o amante; logo, notou que não adiantava nada olhar para os próprios sentimentos. E aí, buscou a razão. E descobriu que não tinha razão nenhuma nessa história toda.
Ele entrou no restaurante cauteloso, pedindo licença aos clientes parados na entrada e viu a namorada de longe, sentada numa mesa do fundo. Aqui e ali pessoas conversavam alegremente, mas o som era mudo para ele. Em um instante tudo se focava nela, que sorriu amavelmente, aparentemente de bom humor, como se ele não tivesse "esquecido" o compromisso. E realmente assim ela se portou. Ele a admirou mais ainda por isso.
Para ele, o estranho na traição e na nova paixão era justamente isso: amava, também, a namorada. Não tinha queixas, não tinha reclamações, o sexo era formidável, o humor dela idem. Nada, realmente nada, desabonava essa mulher. E mesmo assim, ele a tinha traído, e mais injustamente, com sua melhor amiga. Sim ele amava a namorada. E sim, ele amava a amiga da namorada. Não tinha solução. Escolhia uma ou outra, e ainda por cima, teria que contar com o perdão da primeira ou ainda a retribuição da segunda.
Ela, ainda deitada na cama e nua, começou a pensar na amiga. Como a amava. Tinham sido companheiras desde a faculdade, confidentes, irmãs. Uma já tinha ajudado a outra em todo tipo de situação, desde amorosas até financeiras, inclusive tinham morado juntas vários anos, sem uma briga sequer. Gostava de bricar dizendo que, se fosse um homem, casaria com a amiga. O remorso pesou mais ainda e ela se perguntou quantas vezes a amiga teria se deitado ali, onde ela agora estava. Quantos orgasmos, quais as posições. E isso, estranhamente, a excitou. Pensar nos dois deixou-a desconcertada,mas de uma maneira agradável; tal pensamento nunca havia passado sequer por sua cabeça.
Ele disse à namorada que precisavam conversar. Ela, lógico, notou em suas feições o fim. Procurava no rosto dele o motivo, que ele disse à queima roupa: Sua melhor amiga. O choque tomou conta da namorada, que ficou fria e incrédula. Ele, explicava, falando rápido, que amava as duas, que não sabia o que fazer. Ele contou que já tinha pensado e que a única opção era ser honesto e dizer a verdade. Mesmo que isso significasse perdê-las. A namorada perguntou pela amiga, ele disse que deixara ela em seu apartamento. Pegou o celular e ligou para ela.
"Fulana, estás ainda no apartamento dele?"
A traidora, vendo que tudo já tinha ido para o beleléu, deu-se por vencida
"Estou"
Pois bem, estamos indo aí, ele e eu, para termos uma conversa, os três.
E assim foi.

Lá chegando, os dois traídores tinham apreensão no rosto. A calma serena da namorada os afetava mais ainda, pois não podiam ler em sua face seus pensamentos. E então a namorada falou, objetiva:
"Bom, o negócio é o seguinte: Vocês me traíram e isso foi muito desleal. De uma vez, vou perder a amiga e o namorado. Amiga, eu te amo, sempre amei e você sabe disso, e o amo também, e ele sempre soube. Quero saber uma coisa: Você o ama?
Prontamente, ela respondeu que sim.
"E a mim?" - continuou a namorada - "e a mim, você ama?"
"Claro que sim, amiga. Como uma irmã."
"E se não fosse como uma irmã, você amaria?"
E essa pergunta acertou os dois traidores como um soco no estômago. Ela estava realmente propondo o que eles entenderam?
A traidora tinha acabado de descobrir, em seus pensamentos, que sim, que se excitava com a amiga e o namorado.
O traidor era homem e, ainda por cima amando as duas, adorou a idéia.
Por fim, a namorada traída, disse:
"Não quero perder as duas pessoas que mais amo no mundo. Ao contrário, acho que assim nos amaremos muito mais".
Para os três parecia a decisão perfeita. Ninguém perderia niguém.
E assim foi. Ali, na mesma hora, deitaram cautelosamente os três. O primeiro beijo triplo foi estranho, mas muito caloroso. O primeiro beijo das duas, separadas dele, foi uma coisa tão óbvia para elas que não sabiam como não tinha acontecido antes. Todos tiraram as roupas e se amaram.
E como em todo clichê, se casaram (os três) e viveram felizes para sempre.

P.S.1 - Gostaram? :B

Thursday, August 09, 2007

O Clichê (Ficção)

Ambos faziam um amor silencioso debaixo das águas daquele chuveiro. Abraçando-a por trás, beijava seu pescoço de uma maneira suavemente agressiva, em pé. Ela, de costas para ele, tinha um prazeiroso e involuntário sorriso no rosto e os olhos fechados. Ele fazia todo o movimento e ela apenas se deixava levar. Abria levemente a boca em compasso com o movimento; não sentia as gotas de respingo, ou mesmo as que escorriam do seu próprio rosto, entrarem-lhe pela boca.
Até que, gradativamente, pararam. Sem dizer palavra, ela foi cautelosamente se desvencilhando do abraço forte, de modo que a contraparte, percebendo, afrouxou mais ainda o enlace até que a soltou de vez. Virando-se de costas para ela, abriu a porta de blindex e pegou uma toalha. Agora ela aproveitava totalmente o chuveiro, com as mãos em forma de concha e ainda os olhos fechados, na direção dos pingos sucessivos, que lhe caíam repetidamente pelo rosto. Dava a impressão de sentir e apreciar cada um deles em separado, como se fossem uma espécie de milagre.

Enrolado na toalha, ele deu dois passos até a pia, abriu uma bolsa, tirou lá de dentro barbeador, creme e pincel de barba. Espremeu a bisnaga, passou displicentemente o conteúdo pelo rosto e molhou o pincel com água. Pois-se a esfregá-lo, em movimentos circulares, pelo rosto, esperando espuma. Através da parede de vidro temperado, olhou para a garota, que ainda estava na mesma exata posição de adoração às águas.
"Ah, meu Deus, ela é linda" - ele pensou, e logo se retratou pelo clichê. Não só o clichê da frase, mas a própria situação era, por si só, um clichê enorme.
"Ela é mais linda do que eu jamais pude imaginar por baixo daquelas roupas" - agora sim se sentia original. Se fosse algum dia escrever aquela passagem, escritor que era, narraria o pensamento dessa forma. Continuou olhando-a enquanto a espuma se formava, espessa, no seu rosto. Assim que a área a ser raspada estava toda branca, lavou o pincel, bateu-o na pia a fim de tirar o excesso de água, e guardou-o. Da mesma bolsa surgiu uma carteira de cigarros e um isqueiro Zippo, que ele usou para acender o cigarro tirado da carteira. Ao fechar o isqueiro (Zippo são aqueles isqueiros de metal com uma tampa que fecha sobre o fogo - outro clichê, pensava), ela saiu do transe com o barulho. Abriu os olhos e olhou para ele; disse quase em silêncio "Papai Noel", por causa da barba branca de espuma, sorrindo. Apesar de não ter ouvido nada, ele sorriu de volta, deu um trago no cigarro e virou-se para o espelho; ela pegava um sabonete para passar pelo corpo. Assoprou a fumaça e começou a raspar o rosto. A cada trago, soltava a fumaça dividida entre nariz e boca, olhando-se no espelho, analizando o resultado, e raspava outra parte da espuma. Ela agora fechava a torneira da água e procurava uma toalha.
Saiu do box e, se secando, foi a primeira a tocar no assunto.
"E agora?" - perguntou.
"Passemos à próxima pergunta" - ele respondeu, irônico. Na verdade, dissera isso por não saber a resposta. Ela não gostou.
"Porque está desperdiçando o tempo dela?" - perguntou, num tom severo.
"Olha quem fala" - ele disse, secamente.
Nenhum dos dois conseguia evitar a felicidade, e exatamente por isso, tentavam culpar um ao outro.
Mesmo com essa quase-briga, ela, enrolada na toalha, se aconchegou nas costas dele. Sentiu seu cheiro e acaricou-o com o rosto; ele não resistiu e, virando, a abraçou. Tinham gostado demais para se odiarem, ou mesmo, se repelirem. Queriam que aquilo continuasse, mesmo sabendo que era errado.
Ele a soltou, virou-se para a pia e jogou água no rosto. Tirou a loção pós-barba, jogou-a no rosto e o arder o fez responder a última pergunta.
"Eu não estou desperdiçando o tempo dela. Posso até estar, mas não planejei nada disso. Ela é 100% amável, e completamente "não-abandonável". Mas você, como amiga, não ajudou muito" - terminou, com pesar no rosto.
"A culpa não é só minha. Não transei sozinha" - ela quase gritou. Ele a abraçou e disse que não foi isso que quis dizer; que para ele era difícil não pensar nela, mesmo desde quando se conheceram.
E clichê tinha sido até como foram apresentados. Ela era uma grande amiga da namorada dele. Tinha sido a confidente do namoro dos dois, por meses a fio, sem conhecê-lo pessoalmente, só de nome. Quando finalmente se conheceram, a empatia fora imediata. O humor dos dois era muito parecido, riram das mesmas piadas, conversaram assuntos em comum, todo o folhetim. Havia sido uma tarde muito agradável. Então, sempre que lembrava dela, ele sucumbia aos pensamentos. Mas a fidelidade, o namoro indo bem, além da proximidade das duas acabar com qualquer chance de se relacionarem, ele tentava esquecer ela. Mas o sentimento de perda já existia.
Até que se encontraram, por acidente, num shopping. Ele tinha ido almoçar e ela também. Estavam com a tarde livre, e ao se avistarem distraidamente, no restaurante japonês, cada qual sozinho, obviamente sentaram juntos. E a conversa se estendeu por toda a tarde, dali pra um café, e a carona oferecida por ele terminou em um beijo inevitável para os dois. Já na despedida se beijaram no rosto, como amigos, mas a aproximação fez os dois esquecerem do mundo e uma boca foi em direção a outra. Foi um beijo lento, quase cauteloso, mas que fez explodir fogos de artifício em volta deles. Ambos se calaram após, ele ligou novamente o carro e foram para o seu apartamento. Entraram se beijando e foram direto para o chuveiro. O resto é história.
E agora, estavam deitados na cama, abraçados e calados. Evitavam falar, como se isso os livrasse de lidar com a situação. Mas, como diz o ditado (clichê): o destino prega peças. O celular dele tocou, e advinha quem era?
"É a sua amiga" - ele simplesmente falou.
"E sua namorada" - ela completou, desnecessariamente sarcástica.
Com pesar, ele atendeu.
"Pô, eu me esqueci" - ele falou para o aparelho. "Já está aí? Está certo, estou indo agora."
Ela, deitada na cama, o olhava sem entender. Ele desligou o celular e virou-se:
"Combinamos de jantar hoje e eu tinha esquecido. Tenho que ir agora".
Ela, incrédula, nâo sabia o que fazer. Ele, notando, foi o primeiro a se manifestar:
"Vou terminar com ela hoje. Não é justo."
"E você vai contar?"
"Não. Ela vai precisar de uma amiga."
"Grande amiga eu sou." - ela olhou para baixo.
"Olha, eu vou contrar que eu me apaixonei por alguém, o que é a completa verdade. Não preciso dizer que foi você. E não vou dizer. Essa parte é sua. E a gente, como vai ficar?" - ele a olhava fixamente.
"Eu te quero, muito. Tô muito apaixonada por você. Mas não sei. Sinceramente, não sei."
E, diante disso, ele foi embora, terminar o namoro. Ela ficou lá, nua, enrolada numa toalha quase molhada, pensando no que fazer.

(Talvez) Continua na semana que vem... :P
Trilha sonora ideal para ler isso: Bebel Gilberto e Sérgio Mendes - Berimbáu - "Quem é homem de bem, não trái o amor que ele quer.."

Sunday, July 08, 2007

A Engorda para o Abate (Ficção)

O namoro agora durava apenas duas semanas, mas Julia já marcara o encontro de Paulo com sua família. Tinha certeza que elas o adorariam, e era verdade.
Ela tinha sido aquele tipo de garota criada somente por mulheres. A mãe, duas tias e a avó, todas moravam sob o mesmo teto. O pai, falecido logo do nascimento de Julia, havia deixado uma bela herança mais que suficiente para que a única filha pudesse ser criada com tudo de bom e de melhor, estudasse nas escolas mais caras e na faculdade mais conceituada. E nessa faculdade, acabara de conhecer seu novo namorado. E insistia, desde consolidado o namoro:
_Você tem que conhecer a minha família. Todas vão te adorar.
E não é que adoraram mesmo?
Ele era um desses rapazes bem apanhados, sempre bem vestido à moda da época, trabalhava e possuía o próprio carro. Unânime: era um bom partido. Poderia dizer-se disputado, mas gostara de Julia assim que bateram os olhos um no outro. Pois bem, o namoro ia de vento em popa, era natural o convite. Ele aceitou prontamente.
A mãe e as tias se juntaram à opinião vigente entre todas as mulheres que o conheciam:
"_Bom partido!". Só a avó tinha uma ressalva: ele parecia um pouco magro demais.
Logo esse primeiro jantar (assim como todos os seguintes) fora de uma fartura impressionante, mesmo para o número incomum de pessoas na casa. Todas eram, digamos, cheias de corpo, inclusive Julia, mas, Paulo notou, nenhuma comia especialmente muito. Ao contrário, ofereciam muito, que o rapaz aceitava sem jeito. Claro, uma hora ele não agüentava mais, e ainda sem graça, começou a negar a comida, disfarçando o quanto podia, hora fazendo um singelo "não" com a cabeça, hora emendando opiniões (nenhuma polêmica) aos assuntos discutidos à mesa. Opiniões essas, diga-se de passagem, adoradas pelas ouvintes, que se interessavam cada vez mais pelo futuro médico.
Paulo fez sucesso naquela noite, e em todas as seguintes. Passou a freqüentar regularmente a casa da namorada, onde era tratado à pão-de-ló (quase literalmente).
Era sempre recebido com fartos banquetes, os quais as mulheres da casa não o deixavam recusar. Passou a desenvolver técnicas, como por exemplo, a de nunca jantar antes de saber se seria dia de visita à casa "das sogras".
E, seguindo o curso natural das coisas, Paulo começou a engordar.
_Agora sim está corado. - dizia a avó da menina com orgulho.
_É como um homem saudável deve ser. - enchia a boca a tia nº1.
_Viu o bem que fizemos a ele? - dizia a tia nº2.
_É o genro que eu pedi a Deus! - exagerava a mãe da garota.
E, verdade seja dita, o próprio Paulo gostava da adulação. Começou a comer com gosto, ao passo que se acostumava a ser elogiado, bem tratado, sem precisar sequer pedir nada; antes já o ofereciam. E o rapaz engordando...
Chegou a formatura dele. Estavam as cinco (Julia e as mães) tão apaixonadas por ele, que se ofereceram para pagar a festa toda. E foi aquele banquete. Paulo engordava, por baixo, 10 quilos a cada ano. E o amor delas crescia proporcionalmente ao peso do rapaz. Até que a primeira desavença, em todos aqueles anos, veio junto com a frase:
_Quando casarem, vêm os dois morar aqui em casa! - sentenciou a avó, apoiada pelas outras velhas, irredutíveis.
A princípio, Paulo ficou calado. Ponderava, pensava que tudo se resolveria, mas isso o consumia vorazmente, assim como ele comsumia os jantares. "Como pode-se morar com a sogra?" Paulo se perguntava. "E ainda são quatro!"

Depois de alguns dias pensados, tinha certeza: estava fora de cogitação. Mas, amando Julia cegamente, não queria deixá-la. Decidiu, por fim, pedí-la em casamento e, na mesma hora, comunicar que não moraria com as coroas.
E assim foi feito. Os protestos foram instantâneos, primeiro com choro da parte das senhoras, em ordem decrescente de idade - a primeira a chorar foi a avó.
Em seguida, diante da irredutibilidade do noivo, gritos histéricos. Ainda sim, ele não cedeu.
Então elas pensaram, pela primeira vez, na possibilidade de perdê-lo. Não gostaram do pensamento nem um pouco. Se entreolharam e decidiram, caladas: Ele teria que ficar com elas para sempre.
Subitamente, sabiam o que fazer, cada uma a sua parte, como um pacto silencioso. Cercaram Paulo, que não entendia patavinas do que acontecia. E a avó, logo a avó, chegou por trás dele com um rolo de madeira, daqueles de esticar massa, e bateu-lhe na cabeça, com toda a força de uma senhora gorda. Paulo caiu instantaneamente no chão, desmaiado. Julia assistia, calada e inexpressiva.
Levaram ele para a cozinha, desmaiado, e cortaram-lhe primeiro, a cabeça. Jogaram de lado, abriram o peito e tiraram-lhe os órgãos. A avó temperou, refogou e tacou na panela, afim de fazer uma sopa. Enquanto isso, a ex-futura sogra tirava pedaços de carne das partes mais fartas do cadáver de Paulo: fazia bifes dos pedaços menores e os colocava em uma frigideira; os pedaços maiores, arrumava em travessas para assar no forno. Tudo isso temperado pelas tias. Logo viram que era muita carne, e guardaram alguns pedaços na geladeira. Membros e cabeça foram para o lixo.
Foi um jantar calado, nostálgico, mas com a satisfação da certeza de que ele ficaria com elas, dentro delas, para sempre. Jantaram, pela última vez, com Paulo.

Monday, May 28, 2007

Incondicional (Ficção)

_Levanta ou você vai se atrasar pro trabalho - gritou ele de dentro do banheiro - você ainda tem que passar na clínica.
Ísis estava deitada com os olhos abertos, em posição fetal, pensando no que aqueles resultados poderiam revelar. A menstruação atrasada provavelmente indicava um bebê. Não sabia a reação de Pedro caso fosse, então havia feito vários exames para ocultar o de gravidez, que não contara ao marido. Aliás, "marido" era um termo deveras vago, pois não eram casados; moravam juntos havia alguns anos. O relacionamento era visto de fora como perfeito, e também de dentro, por ela, pelo menos. Mantinham a mesma paixão de quando haviam se conhecido, as demonstrações de amor, o carinho, o sexo, tudo desde sempre, perfeito. E ela não queria estragar isso. Trazia dentro de si uma culpa pela menstruação atrasada, mesmo ambos usando preservativos, algo devia ter acontecido. E a culpa era dela.
_Fale alguma coisa - disse Pedro entre um gole de café e outro - está com TPM, é? A brincadeira irônicamente inocente a fez se encolher ainda mais no outro lado da pequena mesa de mármore. Dissimulou um sorriso e um quase inaudível "Claro que não". Se levantou da cadeira, entornou o capuccino em um gole e se mostrou apressada:
_Estou indo. Deixa tudo na pia que na volta eu lavo.
Entrou no carro, acendeu um cigarro. Se perguntou se o fumo faria mal à virtual criança que involuntariamente se formava no útero dela naquele exato momento. Ligou a ignição e mentalizou o caminho da clínica.
Chegou, parou o carro, olhou o relógio: ainda dava tempo. Se amaldiçoou por ser tão pontual - caso tivesse atrasada, poderia adiar a derradeira verdade. Respirou fundo. De resto foi tudo muito rápido. Foi antendida, entregou a requisição, a enfermeira encontrou o exame e passou a ela, que assinou uma guia e voltou ao carro. Acendeu outro cigarro e desenvelopou o papel bem dobrado. O resultado a deixou perplexa.

Faltou o trabalho, ligou dizendo-se doente. Voltou para o pequeno apartamento que dividia com o quase marido, arrumou tudo, sala, cozinha, quarto e, inclusive, suas malas.Rearrumou a vida na sua cabeça, relembrou seus passos até ali, e a resposta era clara. Passou o dia esperando Pedro voltar do trabalho. Na hora de sempre, ele entrou pela porta. Encontrou sua amada inexpressiva no sofá da sala, o fitando com olhos nunca vistos por ele nela antes. Olhos de medo. Sentou-se do lado dela, mudo.
Ela lhe explicou os exames. Contou da menstruação atrasada e do resultado negativo para gravidez. Ele ouvia calado. Tentou interrompê-la uma ou duas vezes, afirmando que nada daquilo acabaria com o que ele sentia por ela, mas Ísis continuava implacável nas explicações:
_Deixa eu terminar, Pedro. Lembra quando brigamos por causa daquela sua ex-namorada? Fiquei com tanto ódio de você ter transado com ela que saí com as meninas, para uma boate, querendo me vingar. Muitas vodkas depois eu estava pronta e me vinguei. Conheci um cara lá, fomos para a casa dele e transamos.
_Eu não me importo, eu só me importo com a gente. Isso é passado...
_Deixa eu terminar, Pedro. - e ele se calou. E ela terminou. - Nunca te contei por saber que você era o homem da minha vida, e eu não queria estragar isso. Mas já tinha estragado e não sabia. Eu transei com ele, e transei sem nenhuma proteção. Acabei esquecendo disso com o tempo, por não dar a mínima importância, mas agora é tarde. Eu tenho AIDS, Pedro. E não posso ter pegado de você, fez esse exame a seis meses.
Agora era ela que não reconhecia os olhos de Pedro. Este encarou o rosto dela, impassível. Olhou os papéis, eram decisivos: HIV POSITIVO, escrito assim, em letras garrafais, em negrito. Foi então que ele suspirou, amassou o papel, levantou-se, jogou-o no lixo, voltou ao sofá, pegou-a pela mão e disse:
_Ísis, eu já falei: o que me importa é a gente. Nós dois. Juntos. E mais nada.
Pedro beijou-a na boca, um beijo longo e molhado, familiar e cúmplice. Pegou-a nos braços e deitou ela cuidadosamente na cama. Tirou-lhe as roupas e fez amor com ela, deixando a camisinha, pela primeira vez em todos aqueles anos, na mesinha da cabeceira.

Tuesday, May 22, 2007

A Safada Princesa Radiante do País Sem-Noção (Ficção)

A Safada Princesa Radiante vivia no país Sem-Noção. Desde cedo, o Rei e a Rainha de Sem-Noção haviam-na ensinado que era a mais bonita e a melhor das criaturas existente no mundo, capaz de fazer e ter tudo o que lhe desse na telha. Ensinaram a ela desde cedo comer bem, gostar de coisas boas e caras (claro, era uma princesa). Nunca a repreendiam em nada de errado que fizesse, a não ser relacionado à etiqueta. Seu pai era um ocupado rei, daqueles que só aparecem para dar presentes, e sua mãe, uma submissa rainha, daquelas que só aparecem pra chamar para o jantar. Sempre tinha tudo o que queria, assim seus pais pregavam que seria certo a uma princesa importante como ela. Presentes brinquedos, roupas; amigos então, nunca faltam às pessoas importantes, não é?
Já saindo da adolescência, ela descobriu o que tanto a inquietava: poderia, dali a diante, escolher um futuro príncipe para seu país (e para ela, claro). Colocava as melhores roupas para ir aos bailes nos luxuosos castelos dos nobres non-senses (nascidos em Sem-Noção eram chamados de non-senses), olhando para todos os lados e descobrindo que a escolha não era tão fácil, principalmente para ela: Não queria só um príncipe.
Como poderia querer só um príncipe se poderia ter mais, se poderia ter tudo? Tudo só para ela? Queria um príncipe e uma princesa. Só para ela.
Logo, nossa Princesa descobriu o prazer ainda na procura. Na primeira noite, um resquício de noção se apoderou dela, dizendo que não poderia escolher os dois na mesma noite. Pegou o rapaz que mais a fascinou, escolheu-o e anunciou como seu namorado oficial. Foi para a cama com ele na mesma noite (a primeira vez de Nossa Alteza), e subiu pelas paredes, descobrindo assim os pazeres carnais que tanto imaginara em suas noites solitárias no palácio real. Mas a idéia de ter também uma princesa não saia-lhe da cabeça. Comentou com o futuro príncipe. Ele, como qualquer nobre, súdito, escravo ou até burguês, adorou a idéia. Saíram agora à caça da futura princesa. Aí, foi mais difícil.
A procura foi tanta - e o sexo com desconhecidas, também - que começaram rumores na sociedade local. Uma notícia maldosa fazia corar e rir: a princesa e o príncipe eram pervertidos sexuais. Estavam à procura de garotas jovens para os atos mais loucos e insanos. Para o espanto de muitos, várias jovens da época se interessaram.
Mas a princesa, logo ela, não conseguia se decidir entre as jovens. A cada noite era uma mais bonita do que a outra, pelas quais ela sentia muito tesão mas nenhum amor, diferente do que sentia pelo príncipe, muito amor mas nenhum tesão. Deu um pé na bunda dele que, indignado por perder toda aquela felicidade e fartura, saiu espalhando boatos ainda mais picantes sobre a nossa futura rainha. Mas a princesa non-sense não perdia a compostura. Danem-se os que diziam, simplesmente queria encontrar o homem e a mulher da sua vida. O problema é que pareciam não existir.
Então, o que já era óbvio para vocês leitores, ela descobriu: o que a princesa gostava mesmo era da sacanagem. Apesar de dizer e acreditar no contrário, acabou por ver que para ela não existia amor sem tesão. Fazer o amor carnal era possuir, era o único momento que acreditava que aquelas pessoas eram realemente dela. Era a forma real de amar. Pelo menos, a única forma que ela conhecia.
O rei e a rainha non-senses morreram sem fazer a mínima idéia de como era a filha. Graças ao puxa-saquismo comum nas côrtes em geral, o reinado da Safada Princesa Radiante seguiu sem problemas, e os boatos ficaram somente para os súditos. Mas foi um reinado solitário. Claro que os bacanais da Safada Princesa Radiante do País Sem-Noção são conhecidos até hoje, mas ela nunca escolheu um príncipe nem uma princesa sequer. Queria tudo e todos, e ironicamente, sozinha acreditava ter conseguido. Possuía todos, como havia sido ensinada que uma princesa merecia. Morreu sozinha no meio de uma suruba (?) e não deixou herdeiros diretos ao trono.

Wednesday, May 09, 2007

Sobrestantivos

Explicaçãozinha: Conversando com a Nê pelo telefone, comentando que eu gostava de fazer Haicais (pequenos poemas tradicionalmente japoneses, compostos de versos 5/7/5 - falarei mais sobre depois), como "passatempo literário", ela me passou um exercício estilístico dado por um professor seu: descrever situações somente usando substantivos. Na hora, adorei a idéia (que minha ignorância não conhecia), e automaticamente ela me sugeriu que fizesse um. Resultado:

Manhã, sol. Feriado, solidão. Garagem, moto. Chave, ignição, motor. Acelerador, barulho. Moto, estrada. Vento, rosto. Capacete, cotovelo. Vento, olhos. Estrada, carros, velocidade. Moto, velocidade, poder. Asfalto, placas, números. Moto. Velocidade velocidade, poder poder. Acostamento, árvores, árvores, árvores... Caminho, cachorro. Desviada, capotagem, queda, asfalto, cabeça, árvore. Morte.

P.S. 1: Será que era isso?

Tuesday, May 08, 2007

E ele teima em escrever versinhos...

O sol que pulsa no peito
irradia vida rubra
que me mantém.

O coração que ilumina o céu
encharca luz d'ouro
que me inspira além.

Do sol que bate meu peito
brilha vida rubro-negra
que me convém.

Do coração que alumia meu céu
resultam tempestades
que te molham também.

P.S. 1: Parei, parei.

Sunday, May 06, 2007

EXTRA!! EXTRA!! Divulgada foto da Boneca do post "Olhinhos Azuis Brilhantes"!!!


Essa é a tão falada boneca. Alguns e algumas me pediram para mostrar uma foto da boneca do conto "Olhinhos Azuis Brilhantes"

( http://ficcaonaocientifica.blogspot.com/2006/12/olhinhos-azuis-brilhantes-fico-agora.html ). Essa foto reconstitui o momento exato que eu descrevi no conto, quem leu sabe que momento foi esse hehehehehe (se quiser saber, clique no link acima). A próxima foto que eu vou colocar é a do cadáver do Mr. Bojangles 2, o segundo peixinho. Valeu.

P.S. Tem POST novo abaixo. Já que está aqui, aproveita e lê :P

Eu? Escrever Sobre Relacionamentos?

Fulana amava Beltrano, ele a amava de volta mas nunca a disse isso. Eles eventualmente se separaram. Fulana conheceu Sicrano. Este dizia que a amava, e amava mesmo. Ela o amou de volta. Se casaram, viveram juntos até morrerem.

Fulana amava Beltrano. Ele a amava de volta e dizia isso a ela. Fulana desejava uma mulher, Beltrano não se importava, gostava que ela desejasse uma mulher. Fulana e Beltrano se separaram, não porquê ela desejava uma mulher, mas por um motivo ignorado. Ela continuou a desejar outra mulher e conheceu Sicrana. Sicrana e Fulana tiveram um caso. Sicrana passou a amar Fulana, e disse isso a ela. Mas Fulana não queria o amor de Sicrana. Fulana reencontrou Beltrano em uma festa, ambos bêbados, e acabaram por ficar juntos naquela noite e por mais incontáveis anos.

Beltrano nunca havia tido uma mulher. Imaginava como seria, já tinha chegado perto, mas tê-la fisicamente, nunca. Algumas mulheres já haviam-no amado, mas nenhuma se entregado. Conheceu Fulana. Ela nunca havia tido um homem. Se amaram. Ficaram juntos deveras anos, se casaram e, finalmente, se entregaram mutuamente. Se separaram por motivos que só competem aos dois, e se casaram novamente, ambos com pessoas que já haviam tido muitas outras pessoas.

Beltrano e Fulana se conheceram ainda colegiais. Trocavam cartinhas de amor, ficavam horas no telefone, namoraram por anos a fio até que Fulana engravidou. Beltrano se mudou para os Estados Unidos.

Beltrano e Fulana eram bem casados e conservados, filhos adolescentes bonitos e inteligentes. Ganhavam muito bem, trocavam de carro todo ano, cobertura à beira mar. Realizados profissionalmente, nomes ilustres da sociedade local. Beltrano conheceu uma Sicrana de 22 anos e nunca mais foi visto nas colunas sociais e nem na cobertura à beira mar.

Beltrano e Fulana eram jovens, bonitos e filhos de pais ricos. Criados juntos, se conheciam desde sempre. Primeiro namorados, noivaram sem demora. Casamento marcado. Sicrano cortava a grama no clube frequentado por Beltrano e Fulana nos fins de semana, onde jogavam tênis. Fulana pensou nunca ter visto homem como Sicrano, Sicrano pensou o mesmo sobre Beltrano. Até que ela o olhou uma segunda vez. Acaso do destino, Sicrano olhava justamente para Beltrano. Fulana desistiu de Sicrano, mas existiam outros jardineiros. 10 anos depois, Beltrano pedia o divórcio, ao flagrar Fulana na cama com o jardineiro da casa deles.

P.S. 1: É complicado demais até além da conta.
P.S.2: Me pediram pra escrever sobre relacionamentos. Mas é tão complicado...

Monday, April 30, 2007

O Crítico (Ficção)

O Crítico vivia para criticar. Onde tinha alguém fazendo (ou falando) alguma besteira, lá estava o Crítico a postos. Alguém realizava alguma coisa, lá estava o Crítico a apontar os erros. Era como uma entidade. Nunca tinha sido chamado, mas mesmo assim, aparecia ele, e sempre na hora do vacilo.
Me lembro do caso relatado pelo Fulano: "Estava eu sozinho em uma praia deserta, quando sem querer, pisei num montinho de merda. Do nada o Crítico apareceu, apontou, deu uma risada e disse: _Olha por onde anda!". Esse causo serve para mostrar o dom da premonição do Crítico: sabia onde estar, na hora exata de criticar alguém.
O Crítico não media esforços para criticar, e isso fazia dele o mais implacável do ramo. Era multimedia; criticava tudo e todos, filmes, livros, revistas, música, inclusive, criticava outros críticos. Isso, para muitos, era visto como traição; era como assaltar um banco com alguém e, no meio do assalto, apontar a arma para o cúmplice e dizer: "Agora passa a carteira". Nada disso incomodava o Crítico; adorava ser odiado.
Costumava pensar consigo mesmo que quando fizesse alguma coisa, ninguém ia ter o que criticar. Seria perfeito no que fizesse, originalíssimo, impecável. Não cometeria os erros que tanto havia visto e criticado.
Adorador de músicas, resolveu compor a sua. Prontamente, encontrou vários produtores querendo lançá-la, para seu espanto. Por tanto criticá-los, pensou que seria a maior dificuldade do mundo lançar o seu tão adorado single. Não foi. E, enfim,chegou o grande dia do lançamento. O Crítico mal podia esperar para ser louvado, recompensado pelo tanto que tinha pensado, refletido e colocado sua alma naquela música, naquela letra. Era a letra que mais o encantava. Sentia orgulho de si mesmo.
No dia seguinte, veio a bomba: todos os críticos o criticaram. Entre aspas, o chamaram de ultrapassado, de obsoleto, e pasmém, de plagiador. "Como pode?", se perguntou. "Impossível, calúnia!" Os próprios produtores disseram ter adorado a música, até um crítico presente na gravação dissera ser ótima a composição da letra, o mesmo que agora o criticava duramente. Em sua matéria, esse outro crítico tinha dito e provado, com a comparação das duas letras das músicas, algo impensável ao nosso herói: A música já havia sido escrita, com a letra igualíssima, só mudava o título e o arranjo musical. O nome da música composta, gravada e interpretada por Crítico se chamava "Porque tu me seduz?". A outra, tinha sido gravada por um cantor chamado Tiririca, e o nome da música era Florentina de Jesus.
Essa música o Crítico nunca tinha ouvido - e nem criticado.

Saturday, April 28, 2007

Ela faz tudo, eu não faço nada.

Eu não faço nada, ela faz tudo.
trabalha em dois lugares,
e eu mal estudo.

De cima do salto ela se impõe
Quem vê de baixo só supõe:
O quanto aquela mulher já viveu?
ao que tanto se opõe?

Sua independência só depende dela,
e não da beleza.
Mas não se engane, ela é bela.
Vai além disso,
ultrapassa o óbvio
de um rostinho bonito.
E eu sei que faz de propósito.

Não precisa de ninguém,
não me tem por isso,
e ái de quem pensa que a tem.

Mais que justo o orgulho
do que já conquistou.
"Ninguém me dá nada"
uma vez me falou,
presente de si mesma
na hora me justificou.

De humor tão inteligente
que a risada subseqüente
se torna bruta.

Opiniões tem muitas, mas não demais.
Sei o que ela pensa de mim,
com um leve apreço sente pena:
"um sem-futuro que não vale a pena
nem usa a inteligência que tem,
ri tanto que não leva a sério
a seriedade de ninguém".
Não é bem assim.

Mas que culpa tenho eu,
de só pensar antes de escrever?
Ou de usar minha cabeça assim:
para traduzir em versos erráticos
o que meus sentidos dizem
sobre ela para mim.

Friday, April 27, 2007

Sicrano (Ficção)

Fulano saía de casa todas as noites. Segunda, ia para um barzinho muito estiloso relativamente perto de sua casa, que ficava numa praia afastada da Cidade Grande. Na terça, voltava ao mesmo barzinho, e muitas vezes com seus amigos, já bêbados, rumavam para uma casa da luz vermelha nos arredores, afim de pechinchar umas mulheres de vida "fácil" a precinhos camaradas.
Na quarta-feira, sempre tinha um show de uma banda desconhecida local, ou vinda da Cidade Grande, em outro bar, esse mais próximo um pouco da Cidade Grande. Na quinta, ia para a casa de uma eventual namorada arrumada na night dos outros dias, e quando não, ia pra "Noite dos Solteiros" na boate Enkontrus, onde sempre "enkontrava" os mesmos amigos dos outros dias e, quem sabe, até uma eventual namorada para visitar na próxima quinta-feira.
Na sexta-feira - ah a sexta-feira - era o grande dia. Todas as pessoas que NÂO saíam nos outros dias podiam ser encontrados em diversos pontos da cidade, todos os já citados e mais alguns, tipo boates e casas de shows. Muitas vezes era reservada para a sexta os shows principais da semana na Cidade Grande, de todos os gêneros musicais. Fulano e seus amigos discutiam tomando umas cervejas em algum posto da cidade e depois seguiam para o local decidido.
Sábado, Fulano acordava completamente ressacado. A cabeça doía, corpo também, a alma mais ainda. Esquecia de algumas coisas da noite anterior, e normalmente não se importava nem um pouco com isso. Se importava era com o que lembrava. Mas isso fica pra depois, porque seu melhor amigo, Beltrano, liga no sábado a tarde, também ressacado, para combinar a noite seguinte. Marcaram no "mesmo posto de gasolina"; de lá, resolveram ir pra um show de uma banda inusitada, que misturava ritmos da cultura local com uma batida mais atual, eletrônica. Encheram a cara, vomitaram, encheram a cara novamente e voltaram completamente bêbados para casa, dirigindo pela estrada.
O domingo começou igualmente ressacado. Cabeça de Galo para a ressaca, almoço da casa da avó com a família, churasco, mais bebida. "Cerveja que é mais leve" ponderou Fulado. Beltrano concordou, entornaram aos gargalos, livraram-se da ressaca. Foi anoitecendo, dormiram no mesmo dia que acordaram, única vez na semana, e já acordaram prontos para outra segunda-feira.



Wednesday, April 25, 2007

O Que é Isso, Companheiro? (Se fosse uma música, se chamaria: Uma Ode à Amizade)

Pô, foi galera, um amigo meu parece que ficou com raiva por causa do blog. Incrível, não? E foi logo um daqueles adorados, sabe? Daqueles que agente é fã, que a gente ama mesmo. Mas não foi por causa de um POST não. Incrivelmente foi por causa de um comentário. Um comentário dele mesmo.
Na humilde redação colegial "Represálias (Ficção)", que eu postei aqui, ele comentou de maneira extremamente original, como sempre faz, usando algo do texto como elemento para embasar alguma opinião dele. Em três comentários engraçadíssimos, ele "se fez" das três ficcionais personagens do conto, e comentou a opinião de cada uma a respeito do encontro também ficcional, finalizando com um comentário assinado com seu próprio nome, dando a opinião dele sobre a idéia que a crônica passava. Só que ele o fez de maneira um tanto "pesada", usando palavras de cunho altamente sexual e/ou dando a entender coisas que poderiam ser entendidas como "mal-gosto". Como eu sempre quis deixar o blog com um tom mais leve, pra que ninguém se ofendesse - e por eu achar que se tratava de uma brincadeira dele - não achei que teria problemas em apagar os comentários escatológicos e deixar o assinado por ele, muito elegante e igualmente genial, que mostra claramente sua opinião a respeito do texto. Bom, pelo visto, não foi suficiente.
Acusações brincalhonas de censura, eu ouvi. Até comentários anônimos ele mesmo deixou aqui no blog. Daí, para finalizar, ele fez uma engraçadíssima charge minha, enumerou dez "características" e as colocou no blog dele. Foi tudo muito engraçado (embora quase tudo seja mentira), eu ri muito (estou inclusive usando a charge como imagem de exibição no MSN), e ainda criou um novo apelido pra mim: Tony Jampada. Ahahahahahahha. É, por causa da minha coluna no "baladas jampa.com" - e eu que o chamo de J.R.(...)

Mas não deixei de notar um tom de mágoa no ultimo comentário dele nesse blog, falando em vingança. Vingança? Por uma besteira dessas? O que é isso, companheiro? Sua brincadeira e charge para comigo nunca vai se passar por vingança!
Eu até pensei em fazer uma piada do mesmo jeito, colocando características dele aqui, como por exemplo, as BRINCADEIRAS que ele sempre faz sobre a própria intimidade sexual dele (pleonasmo ou redundância?); ou a mania que ele tem de esculhambar "todomundo"; ou ainda dizer que, na foto do blog dele, a boca pode se passar por algo estranho (um cu); mas eu nunca faria tal coisa. Ele é um grande amigo, e eu nunca, mas nunca mesmo, quero fazer algo que mude isso. Obrigado por lerem meu desabafo!

"O humor serve pra muitas coisas, inclusive para fazer rir" (Chico Anísio).

PS1. ahahhahahahahahahah
PS2. A quem interessar (rir de mim), possa:
www.euodeioissoaqui.zip.net
PS3. Quem aguentou ler até aqui, meus obrigados mais sinceros.

Sunday, April 22, 2007

Meu problema é escrever (Sei que alguém vai pensar isso hehehehhe)

O problema de ser sempre engraçado, é que não te levam a sério quando você fala sério.
O problema de ser sempre sério é que também não te levam a sério, além de rirem de você tanto quanto se fosse sempre engraçado.

O problema de conversar com quem fala muito é um só: ouvir.
O problema de quem fala muito é um só: falar.

O problema de acordar cedo é dormir cedo.
O problema de acordar tarde é que Deus não ajuda.

O problema de se achar é se perder pela boca na maioria das vezes.
O problema de se perder é chegar atrasado.

O problema de não ter conta em banco é não ter cheque especial.
O problema de ter conta em banco é usar o cheque especial.

O problema de não votar é ser acusado de ser o responsável pelo mal estar do país.
O problema de votar é exatamente o mesmo.

O problema de falar rápido problema é acabar dizendo 'pobrema'.
O problema de ouvir 'pobrema' é segurar a gargalhada.

O problema de não ter um bom padrão de vida é lutar todos os dias para tê-lo.
O problema de ter um bom padrão de vida é lutar todos os dias para mantê-lo.

O problema de dormir é acordar.
O problema de não acordar é estar morto. (ou em coma, ou cataléptico; enfim, você entendeu.)


O problema de me ler é ter que me aturar.
O problema de me aturar é acabar me lendo denovo.

O problema de escrever sobre os problemas é que não resolve nenhum problema.
O problema de não escrever sobre os problemas é acabar tendo problemas do mesmo jeito.


Saturday, April 14, 2007

A Represália (Ficção)

Foi, sim. Incrível, não é? Meu último POST teve represália. Represálias, na verdade. Fora o comentário que vocês podem (ou puderam) ver, teve mulher me xingando no meio da rua. É brincadeira minha, mas eu juro que duas disseram que nunca mais vão sair comigo. E tiveram, claro, as amorosas, que deixaram lindos recadinhos e me mandaram emails me parabenizando, dizendo "Só você mesmo, Fábio" ou coisas do gênero. Obrigado a elas.
Mas represálias vieram, fora o comentário que eu já comentei. Tiveram aquelas que resolveram aceitar um convite meu. Acho que fizeram isso querendo se vingar. Sexta eu saí com uma morena baixinha daquelas mignon, no sábado com uma loura linda e no domingo, com uma ruiva daquelas exoticamente maravilhosas. Incrível, não é? Acho que vou continuar escrevendo aqui...

PS. 1 - Vejam o significado da palavra "ficção" no quadro de título do blog (estraído de um dicionário), antes de pensar qualquer coisa. Depois, note que a mesma palavra está do lado do título, indicando que o texto (esse, o anterior e et cetera) é uma ficção.
PS 2 - Sim, eu vou pra o show do Chico Buarque em Recife, e não, não vou levar nenhuma de vocês. Não que eu não queira, mas não tem mais ingresso ;/

Saturday, April 07, 2007

Mentiras que as Mulheres Contam (Crônica/Ficção)

O ilustre Luis Fernando Veríssimo vai me desculpar (por favor, Mestre!), mas surrupiei descaradamente o título de uma de suas mais famosas obras e a adaptei para a crônica (texto? ensaio? minhas letrinhas?) seguinte. Não quero ser machista nem nada, apenas expor causos que às vezes acontecem na vida de qualquer homem que se disponha a convidar uma mulher para sair. Muitas vezes, essas aproximações não são bem sucedidas, por diversos motivos que não vêm ao caso. O que vem ao caso é como algumas mulheres conseguem se desfazer da proposta de maneira hábil, fazendo com as palavras mais ou menos o que um samurai faz com sua espada: cortar. E cortar da maneira mais rápida e indolor possível.

Existe algumas saídas para um convite que são tidas como "padrão" por elas, como no exemplo seguinte:

Ele: _Vamos sair no sábado à noite?
Ela: _Pode ser...
A resposta é meio vaga, então normalmente é seguido pelo reforço:
_Eu te ligo.
Que normalmente nunca é seguido por um telefonema.
Às vezes o cara pode sentir a irresistível vontade de provocar a mulher, dizendo:
_Nem me ligou, hein?
Ela dispara a desculpa das desculpas, perfeira para essa situação:
_Fui assaltada, roubaram meu telefone e perdi o número de todo o mundo.
Ouviu bem o que ela disse? De todo o mundo. De todo o planeta terra, inclusive o seu, mané. E nem pense em dar denovo. Não adiantaria absolutamente nada.

Existe também um enorme leque de respostas muito convenientes com cada situação. Um bom exemplo é nas vésperas de um feriado:
Ele: _O que você vai fazer nesse feriado?
Ela: _Não tenho plano nenhum.
Ele: _Vamos no cinema?
Ela: _Humm..
O "Humm" é para dar a impressão que ela está analizando o convite, mas na verdade ela está inventando a desculpa. Novamente:
Ela: _Humm... Estou esperando a resposta de umas amigas pra viajar pra praia de Jaguatitica. Se não for, "eu te ligo".
Notem que em um momento ela não tinha planos, provavelmente por não ter previsto o indesejado convite. Quando viu, era tarde demais e se saiu com uma razoável meia-verdade, passível de explicação caso o "convidadeiro" proteste. E se ele protestar realmente, ela vai falar tanto no ouvido dele, explicando tim-tim por tim-tim de tudo relacionado a viagem (imaginária, assim como a praia), que o cara vai se dar por feliz com o fora - e com o blá blá blá, ela ainda se vê livre de futuros convites indesejados desse cidadão.
E notem ainda que está lá o "eu te ligo" denovo. Esse "eu te ligo" é fatal. Ao ouví-lo, pode dar o assunto por encerrado. Alguns caras tentam, sem sucesso, argumentar que ela não tem o telefone dele. Não adianta nada. Normalmente, a essa altura ela já está prestando atenção a outra coisa, que não é o que o cara está dizendo. O argumento se perde no ar, feito fumaça. Em última hipótese, ela pega o celular demonstrando que vai gravar o número na agenda. Enquanto o esperançoso mané (se acredita que ela vai ligar, é mané) fala o número, ela está checando se tem mensagens ou ligações novas. Anotado?

Tem também uma resposta muito usada pelas mulheres, que fica sem argumento algum da parte masculina. É o forte:
_Estou me sentindo mal.
Ou a variante:
_Estou doente.
Ou ainda a assustadora:
_Estou com TPM, porra!
Estes são normalmente usados para desmarcar encontros que ela previamente aceitou por não encontrar a desculpa certa na hora certa. Então, provavelmente, se consulta com algumas amigas, que já usaram o recurso com indiscutível sucesso, e então aproveitam para testá-lo. Sempre dá certo com elas também, e assim, passam adiante o conhecimento a novas amigas sem timing criativo.

Existem ainda casos mais arriscados em eficácia, por que deixam o convite em aberto (se o cara for muito chato, ele insistirá até ela usar uma das táticas já relacionadas acima). Esse recurso consiste na mulher, habilmente, conduzir a conversa para outro patamar, mudando de assunto. Existem duas maneiras conhecidas:
Uma mais sutil:
Ele: Quer pegar um cinema?
Ela: Qual filme?
Ele: O Último Rei da Escócia.
Ela: Esse filme existe mesmo?
Ele: Claro, é um filme sobre sobre o ditador Idi Amin, de um país africano, e que ganhou o Oscar de melhor ator...
Nessa hora, o convite já foi para os caralheos há muito tempo. Ou ela sai de perto do cara, ou começa um assunto pegando carona no que ele mesmo iniciou sem se dar conta da armadilha. Nesse caso específico, poderia ser sobre a fome na África, ou como os países ricos exploram os pobres, et cetera, et cetera.
E a outra maneira, essa mais brusca, de sair do convite na mesma tática, normalmente é usada em casos do cara ser um tremendo de um mala:
Mala: _Quer pegar um cineminha, gatinha?
Ela atira, sem dó do mala, e ainda com voz de choro:
_Pô, ficou sabendo que o Marcão morreu?
Mala embasbacado, boca aberta e olhos arregalados, cara de quem levou um sacode:
_É mermo?
Desarmado, o mala não sabe mais o que dizer, só tinha decorado a primeira frase. O convite é sufocado pelo silêncio do próprio mala, que procura sem sucesso um pensamento para rebater a notícia bombástica. Não é bombástica para ele, que nem sabe quem é Marcão (e que provavelmente nem existe). É bombástica para o convite e para o raciocínio neanderthal do "sem alça". Como se pode refazer um convite nessas condições? Morte súbita para o convite, só resta ir tentar com outra.

Como podem ver, as mulheres (sempre elas!) merecem o aplauso masculino. São hábeis, muitas vezes colocadas em situações constrangedoras pelos homens que as cercam e saem disso de uma maneira tangencial, sempre diplomática, digna das melhores embaixadoras (ou será "embaixatrizes"?) do mundo.
Viva às mulheres, elas merecem!!!

P.S. Os acontecimentos retratados aqui são meramente ilustrativos; Qualquer semelhança com a vida real é mera coincidência et cetera.
P.S. 1: Esse texto foi originalmente escrito no Dia Mundial da Mulher, mas eu tinha perdido e achei hoje de manhã. Claro que atualizei-o e agora, podem rir à vontade (pretensioso, não?)
P.S. 2: Por favor, não tenham o bom humor de levar isso a sério, nem considero "mentiras" , foi só uma brincadeira, sem ofensas. (O Veríssimo não precisa se explicar, mas eu sim.)

Tuesday, March 27, 2007

Só pra dizer...

Sempre creditei à publicidade (não só a ela, diga-se an passant) o status de genialidade. Concordo que existam propagandas mal propagadas, toscamente produzidas e/ou criadas, e que mesmo assim podem expor o lado engraçado e acabar por tornar a marca falada. Não me refiro a isso.
Me refiro à possibilidade infinita de ter idéias, de conseguir vender um absorvente que passa o dia inteiro dentro da mulher (!) - o trocadilho da exclamação entre os parênteses anteriores foi acidental - ou da possibilidade de vender um desodorante, como pude assistir outro dia na TV, de maneira no mínimo, masculina (antes do derradeiro final, claro, que explicarei mais adiante).
O comercial em questão mostra uma mulher vestida de "Indiana Jones", uma verdadeira Lara Croft - bermudinha, botas estilo "boot de safari", e até um infame chapéu-Crocodilo-Dundee - correndo pela cidade, atravessando ruas com apenas um salto (um pulo, hein?), resolvendo problemas do dia-a-dia, conversando com pessoas anônimas/atônitas e, no final de tudo, entrando em uma limusine pelo teto solar. A nossa aventureira urbana cai ao lado de um galante galã (retundância?) com o sovaco (suvaco? axila?) na sua cara. Ele, inabalável pela visão raspada, sorri embasbacadoramente, provando para todos nós que o desodorante funciona, sim! Genial. Falando sério.
Sempre nutri uma admiração à distância pelos publicitários em geral (sem querer generalizar) por suas obras. Vender para mulheres deve ser ainda mais difícil, já que por serem o público consumista por excelência (sem generalizar, de novo!), e fazer com que elas escolham tal ou tal marca entre tantas em suas inúmeras compras, me parece uma tarefa ainda mais árdua.
Sim, eu sei do truque "a mulher tem que ser a poderosa" ou algo assim vigente no mundo publicitário, eu vejo documentários na Sony Entertainment Television. Mas não só isso. É colocar isso em um contexto. E pelo que eu vejo, têm feito com muito sucesso.
Menos difícil, acredito em minha vã filosofia, deve ser vender cartões de crédito para tais mulheres.

Friday, February 02, 2007

Mr. Bojangles Two Died Too (Quase-Ficção)

É, foi o que aconteceu. Quem já leu o blog alguma vez ouviu falar do Mr. Bojangles 2. Ele foi o Beta que eu comprei pra substituir o Mr. Bojangles, o meu peixinho suicida que eu peguei em uma feira de animais de estimação. Recapitulando, ele se jogou pra fora do aquário-pote de maionese em que vivia, depois de uma rápida mas marcante presença na minha vida. Leia mais a uns 3 ou 4 posts abaixo, no texto intitulado Mr.Bojangles (Ficção).
Bom, como eu ia dizendo, o Mr. Bojangles 2 morreu. Ele morreu sem ar, segundo me disseram, a água estava sem oxigênio. Eu me pergunto como é que a água estava sem oxigênio se ainda era água? (só testando: água = H2O, portanto, sem oxigênio, não seria mais água, correto?). Enfim, cheguei em casa e estava ele boiando no aquário que eu tinha comprado, soltando faíscas azuis de suas escamas, ainda parecendo estar vivo. Despejei a comida. Quando notei que ele não comeu, descobri (nossa que observador!) que o peixe estava morto.
Retirei cuidadosamente ele da água, e, na ausência da caixa de fósforos para velá-lo assim como seu antecessor, resolvi jogá-lo na privada sem caixa mesmo. Parei em frente ao vaso, pensei na canção que dera nome aos dois, cantarolei baixinho e com muita dó "mister bojangles, daaaaaaaaance" e joguei-o. Nesse exato momento, senti algo se tremendo na minha mão. O peixinho se debateu uma vez no exato momento que o atirava de encontro ao jazigo de porcelana. Ainda tentei pegá-lo no ar umas 2 vezes, mas foi em vão.
Mr. Bojangles 2 mergulhou, com a habilidade de um saltador olímpico - daqueles que pulam do trampolim em acrobacias fenomenais (esqueci o nome do esporte agora) - e "blup", fez o barulinho caindo na água. Eu estava de boca aberta.
Como teria sobrevivido Mr. Bojangles 2? O que o teria feito não se debater hora nenhuma na minha mão enquanto eu o levava ao túmulo? Será que estava treinando para respirar fora dágua? Eu nunca vou saber, mas a questão é que eu não tive coragem de dar a descarga com o pobrezinho vivo ali dentro. Não mesmo.
Interditei o banheiro, ninguém mais o usa, e eu, todos os dias, coloco comidinha-para-peixes-carnívoros dentro daquele vaso sanitário. E ali vive contente o Mr. Bojanges 2.

P.S. 0 Pulem e/ou desconsiderem os dois poeminhas idiotas abaixo.
P.S. 1 Só me pergunto como eu vou fazer para trocar a água quando ela sujar.
P.S. 2 Leia a história do Mr. Bojangles original, é mais interessante ainda que essa. valew.
P.S. 3 Me lembraram agora que o nome do esporte é Saltos Ornamentais.
P.S. 4 A escrita está lastimável, me perdoem. Depois eu dou uma guaribada.

Tuesday, January 16, 2007

Grande Coisa

Doce ilusão, agora tão amarga,
nosso pacto foi 'pra sempre',
mas agora não é nada.
Para durar era bom demais,
para acabar era mais capaz,
como tudo que é perfeito e que
sucumbe à imperfeição da paz.
"E quanto a isso, o que se faz?"
"NADA" - respondo ao nobre rapaz,
que me pergunta, fora de hora,
se tinha sido eu um capataz.
Completei que eu nada tinha sido,
a não ser um inocente menino,
por ter entregado de bandeja
meu coração, agora falecido.
Ainda bombeia, convalecido,
o sangue por ela bebido,
mas até hoje só com meia-força,
porque por ela eu fui esquecido.
E tenho agora, novas notícias:
Por ela fui lembrado; e que,
por minhas letrinhas fictícias,
para sempre serei amado.
Grande coisa.

Wednesday, January 10, 2007

(Nosso) Flerte

Olha pra mim, assim, sei que não vai ser tanto...
Não precisa ficar comigo até o fim, vai ficando.
Com presente, o nosso futuro vai se formando.
Sorri pra mim e abafa seu sorriso conversando,
quem quer que seja está do seu lado escutando,
e daqui vejo você imaginar o que estou pensando.
Até hoje, eu sei por onde você esteve vivendo
sei tudo sobre você mesmo não te conhecendo,
sei tudo que podemos ser mesmo nós não sendo.
Cada olhar seu na minha direção e tudo vai se esclarecendo,
sei que você quer o mesmo que eu estou querendo,
mesmo que seja apenas por esse breve momento.
Termina esta sua infrutífera conversa sorrindo,
levanta e vá no balcão pegar um café fingindo
que não sabe que atrás de você eu já estou indo.
Do que eu era (com ela / sem você) eu estou fugindo.
O que primeiro eu digo é uma graça, quero você rindo,
e nossa velha solidão mal-acompanhada vai, aos poucos, se esvairindo
.

Tuesday, December 19, 2006

Olhinhos Azuis Brilhantes (Ficção) (Agora com Final Alternativo! eheehhhehe)

A minha já mencionada filha pediu uma boneca de presente de aniversário. Era uma daquelas bonecas grandonas, já imitando uma adolescente, com mais de um metro de altura, cabelos louros e olhos azuis brilhantes. As roupas da boneca eram, normalmente, roupas de quando minha adorada filhinha era ainda mais nova, por volta de um ano de idade, e em tudo ou quase tudo a boneca se assemelhava a um ser humano. Até umas frases idiotas a boneca falava.
Por vezes, a boneca me pregava uns sustos. Minha filha a deixava sentada no sofá da sala, eu passava e via de relance aqueles olhos azuis cintilando. Quando eu olhava, a boneca me encarava com o riso estático à meia-boca, um sorriso semi-aberto que continha dentinhos plásticos de um branco artificial. Singela. A singela beleza plastificada me encarando.
A boneca passou a semana inteira na minha casa, enquanto minha filha estava na casa da mãe. Coloquei a boneca dentro do quarto da única criança da casa e só quem entrou lá foi a empregada para arrumar. Na sexta, às vesperas dela chegar, fui ver se o quarto estava arrumado e, quando abri a porta, a boneca estava com a cabeça virada de lado, olhando como que assustada pela porta aberta de supetão. Cheguei a conclusão de que a empregada a deixara daquele jeito aleatoriamente, mas mesmo assim me incomordaram os olhinhos azuis feitos de acrílico.
Eu já vi muitos episódios de Além da Imaginação, do tipo em que uma coleção de barbies toma uma casa de assalto mantendo a governanta de refém ou um boneco de um herói toma vida, e sabia que não era isso que estava acontecendo. Era uma boneca, e ela estava sempre lá como uma boneca, sempre era tratada como humana e estava começando a me encher o saco. Não sei dizer por quê, mas eu sempre me sentia observado pela boneca. Sem contar os sustos de ver, de relance, uma figura "humana" olhando para mim no escuro. Minha filha deixava a boneca por todo canto. Na sala, na cozinha e até no banheiro. Uma vez, quando abri a porta, estava ela lá sentada no vaso olhando em direção a mim. O susto foi tão grande que quase que eu faço nas calças mesmo. Ainda bem que me toquei ser a boneca a tempo e me contive. Ela era tratada como um ser humano. Minha filha passava o dia com ela. Dava comida, colocava pra dormir, levava ao banheiro. Numa dessas que eu levei o susto relatado acima.

Enfim, numa manhã de sábado, fui acordar minha filhota no quarto dela. A colcha a cobria da cabeça aos pés, e eu entrei chamando pelo nome. E nada dela responder. Chamei mais umas duas vezes e silêncio. Quando tiro, já angustiado, a colcha, está lá a boneca sorrindo debochada pra mim, com os olhinhos azuis abertos, com cara de quem me pregou mais uma. Não contei conversa: peguei a boneca pelo pescoço, xingando, e chamei pela minha filha; ela não respondia. O que teria acontecido? Saí gritando pelo apartamento, desesperado, e nada. Perguntei, perguntei e nada. Por fim, apelei: "Se isso for uma brincadeira, a brincadeira acabou. Cadê você? Aparece!" - num tom entre o raivoso e o apelativo, gritando. Minha menina saiu de trás do sofá, meio assutada, e me comunicou que estva brincando de esconde-esconde com a boneca. E a boneca lá, me sacaneando com o sorriso artificial de escárnio, os olhos brilhando, feliz da vida. Tinha sido a gota d'água.
Peguei-a pelos cabelos louros de plástico e fui até a varanda, seguido pela minha filha. Olhei pra ela, levantei a boneca bem alto e disse: "Isso daqui é só uma boneca!!!" - e defenestrei a boneca 4 andares abaixo. Se chocou lá embaixo no chão e se quebrou em vários pedaços. Um deles era a cabeça. Minha filha pediu para ver, eu a levantei no colo e mostrei. E não é que a cabeça da boneca ainda tinha os malditos olhinhos azuis brilhantes e o sarcástico sorriso plástico cheio de ironia? E n
ão é que ainda me encarava a filha da puta!

P.S. vai ficar desse jeito por enquanto, depois eu dou uma guaribada na escrita. valew.

P.S.2: Vai um final alternativo sugerido por dois grandes amigos numa conversa interessantíssima e engraçadíssima, e aqui vai meus sinceros apreços aos dois. Mas para melhor entender o final alternativo, sugiro a leitura do conto anterior, Mr. Bojangles.

Desisti de olhar os olhinhos lá embaixo, resolvi deixar tudo aquilo pra lá. Levei minha filha à cozinha, coloquei uma enorme taça de sorvete para cada um de nós dois e começamos a ver televisão. Ela pediu para que eu fosse no quarto dela pegar um brinquedo para ela. Fui, terminando minha taça de sorvete no caminho. Quando abro a porta, está sentada na cama, como costumava fazer, a desgraçada da boneca, inteiríssima, com os olhinhos azuis de mentira me olhando, o sorriso artificialmente irônico me sacaneando. Senti um misto de surpresa e susto, mas algo chamou rapidamente minha atenção: um objeto transparente brilhava no colo da boneca, cintilando como que se mexesse. Estava parado, era de vidro. Tinha água dentro. Era um vidro de maionese. E algo se movia dentro do vidro de maionese. Lá estava, para o meu grande espanto, o Mr. Bojangles nadando. Nadava em um ritmo certo, nadava como se ouvisse a música.

Friday, December 08, 2006

Mr.Bojangles (Quase-Ficção)

Um belo sábado, levei minha filha a uma feira de animais de estimação. Quem entrasse e tivesse uma criança com menos de doze anos, ganhava direito a um peixe Beta. Entrei numa fila de umas 500 pessoas só para pegar o peixinho para ela, que insistia constantemente. Depois de ficar umas 3 horas em pé e ainda ter o meu pé pisado por um pai de 200 kilos revoltado com o tamanho do peixe (achou pequeno), consegui o Beta - nada de aquário, nada de comidinha de peixe, nada de manual de instruções: só um peixinho dourado (Dourado já é outra raça, portanto esse era um Beta dourado) dentro de um saco plástico transparente. Olhamos rapidamente a feira e fomos embora - tinha esperado tanto que quase já não tinha mais feira.
Eu sempre gostei de peixes. Mas esse era diferente. De alguma forma, ele parecia comigo - não fisicamente, claro. Ele só ficava ali, parado, dando umas nadadinhas, às vezes eu pegava ele olhando o mundo e a mim através do vidro transparente do pote de maionese - sim, eu o coloquei em um pote de maionese - já que na própria feira não tinha um só stand que vendesse aquários para os tais Beta (comerciantes sensacionais, já que a feira deve ter distribuído uns cinco mil betas e vendido zero aquários). Ao fim do final de semana, mInha filha voltou para a casa da mãe e o peixe ficou na minha. Coloquei ele do lado do monitor do meu computador.
Enquanto eu escrevia ou navegava na internet, lá estava o peixinho olhando para mim. Nadava tranquilamente, parava, me encarava com olhinhos perguntadores, comia um ou outro pedaço de comidinha que boiava no aquário imporvisado. Um dia, coloquei uma música do Bob Dylan, uma das minhas preferidas e o peixinho começou a nadar imediatamente. "Mr. Bojangles, Mr. Bojangles, daaaaaaance" - cantava o fanho Dylan no refrão e dançava o pexinho no ritmo. A música se chamava Mr. Bojangles, e fiquei tão impressionado que coloquei nele o nome da música. Mister Bojangles. Perfeito.
O gosto musical nos aproximou. Logo comecei a ter conversas regulares com o Mr. Bojangles, sobre meus contos, meus problemas com namorada(s), sobre dinheiro, tudo eu conversava com ele. Era uma espécie de Wilson (a bola de vôlei) para o náufrago Tom Hanks. Ele parecia se divertir. Ouvíamos Bob Dylan juntos, conversávamos (eu falava e ele ouvia), até cerveja tomamos juntos (na verdade, eu tomei e ele assistiu). Várias soluções eu encontrei conversando com o Mr. Bojangles.
Aconteceu de eu começar a escrever um conto (muito grande para postar aqui no blog). Bojangles sabia tudo sobre o conto, eu ia escrevendo e contando a quantas andava, novas idéias, tudo. Escrevi de uma vez só, virei a noite toda. E o Mr. Bojangles, lá. Já amanhecendo, anunciei vitorioso: Terminei! Quando olhei ao lado do monitor, meu grande amigo e companheiro de escrita não estava no aquário. A água parada, límpíssima. Até os cocôs do Mr. Bojangles haviam sumido. Eu não acreditei no que via. Aliás, no que não via.
Teria Bojangles se tornado um peixe-pássaro e saído voando? Estaria o aquário vazando e ele teria descido pelo vazamento? Procurei um furo, mas não havia água em volta. Pera aí, havia pingos dágua se estendendo em uma linha quase reta por toda a mesa, que terminavam em direção à parte de trás dela. Afastei a mesa e fui olhar, estranhado; lá jazia Mr. Bojangles, imóvel. Ainda peguei ele desesperadamente e o joguei de volta na água, mas ele desceu debilmente até o fundo e boiou de volta à superfície de cabeça pra baixo. Pobre Mr. B. Mesmo tendo se matado, mesmo tento pulado para fora do aquário por livre e espontânea vontade, se tornando um suicida, merecia um funeral justo. Coloquei-o em uma caixa de fósforos e mandei descarga abaixo, ao som da música: "Mr. Bojangles, daaaaaaaance", torcendo para a privada não entupir. Não entupiu.
Às vezes me pergunto os motivos do Mr. Bojangles ter cometido tal ato. Nos divertíamos, conversávamos bastante, acho que ele teria me dado alguma indicação de depressão. Cheguei a conclusão de que ele não gostara do meu conto.
P.S. Comprei o Mr. Bojangles 2. Ele ainda não se matou, me observa e ouve meus comentários atentamente enquanto escrevo isso.

Tuesday, December 05, 2006

Ler ou Não Ver? Eis a Questão

Vêem, os olhos, (o) que querem. Ou (o) que podem.
Orbitam a órbita lógica do globo ocular, no osso orbital.
Óbito tal, qual? O quanto se faz normal com anoréxica + Xenical?
Fluoxetina não corta (a) Caloria = Kcal, anulada na real by ideal de beleza normal.
Normal?
Nos olhos de quem vê está a beleza de quem bela não se vê.

"Ler a bula é o melhor remédio" (Lúcia Rosas)

Monday, December 04, 2006

E na Parada de Ônibus.. (Ficção)

Quem é aquele menino olhando para mim do outro lado da rua? É bonito, hein?
Ai meu Deus, ele ainda tá olhando. Deve ter me achando gorda, já que eu tô enorme mesmo. A cara dele é de riso, ele tá sorrindo? Não, eu conheço aquele olhar, é de ironia. Ele tá achando algo engraçado em mim. Dessa distância ele só consegue ver uma bola mesmo. Ele tá atravessando a rua, a cara de cínico tá aumentando. Cadê esse ônibus que não chega? Será que ele ainda tá olhando pra mim? Está. Quem é ele afinal, acho que conheço de algum lugar. Bom, se ele me conhecer, que venha falar comigo. Mas ele tá me encarando mesmo, agora. Será que é o meu cabelo? Não, acabei de pintar de vermelho, tá lindo. Ou ficou um pedaço de alface no meu aparelho? Passei a língua no aparelho, não pareceu sujo. O que ele tá olhando tanto com essa cara irônica? Ah, vou parar de olhar para ele, tá tirando onda com a minha cara, eu não tô com paciência pra isso não. Nem conheço ele. Será que é a minha roupa? Droga, ele continua olhando, que cara de pau! Vai passar por mim agora, vou parar de olhar para ele. Ônibus desgraçado que não chega. Ele passa por mim e diz:
_Você é linda, viu? Pela cara que você me fez, acho que não quer me conhecer não. Mas, de qualquer maneira, tá aqui o meu telefone - e me entregou um papelzinho.
Peguei e disse que estava tudo bem. Sorri pra mim mesma.

Sunday, December 03, 2006

Mamãe e Papai (Ficção)

Papai tá com o rosto triste. Mamãe também, eles andam um atrás do outro. Tem muita gente andando uma atrás da outra, todas com estrelas desenhadas no braço. Eu lembro daquela estrela, papai disse uma vez que ela representa o que nós acreditamos.
As mãos dele estão juntas, com uma corrente em volta. Acho que foi aquele homem com a cruz no braço. Aquela cruz é diferente, está torta, tem perninhas nas pontas. Fica dentro de uma bola branca no meio do vermelho. As maiores cruzes ficam em bandeiras. Todos os homens que bateram em papai tinham essas bandeiras no braço. Eles batem em muita gente, será que aquela bandeira vermelha representa bater? Será que é nisso que eles acreditam? Vou perguntar pro papai depois.
Agora eu não posso. Um homem com a bandeira vermelha está do meu lado e dos meus novos amiguinhos. Alguns estão chorando, chamando os pais deles. Eu não entendo. Papai disse para eu obedecer o homem que era melhor. Quero abraçar papai e mamãe, me sinto sozinho. Abraçar como abracei na minha festa de aniversário.
Eu lembro, fiz 6 anos. Ganhei um caminhãozinho de presente. Foi a primeira vez que eu vi aqueles homens. Andavam todos iguais, vestidos iguais, carregando aquela bandeira vermelha. Depois disso, eu via sempre. Entravam nas casas dos vizinhos, tiravam eles lá de dentro. Vi muito vermelho, também. Teve um homem que bateu em uma mulher, ele parecia estar com raiva dela, bateu tanto que ela dormiu. Nesse dia, levaram a gente de casa. Tô com saudades da minha casa.
Aqui é ruim, tem muitas camas, muita gente mora junta, todo mundo com estrelas pintadas no braço, pouco espaço. Minhas roupas estão rasgadas. Eu nunca vejo papai, eles sempre está trabalhando. Ele e mamãe.
Os homens que andavam sempre igual agora gritam muito, batem muito. São bravos. É a primeira vez que vejo mamãe e papai andando assim, com as mãos presas. O homem com a cruz no braço que está perto de mim me empurra, acho que é pra andar. Meus amiguinhos também andam. Chego pertinho de papai, ele olha pra mim, parecia que tava chorando. Mas ele e mamãe sorriem. Estou andando agora do lado dele e de mamãe. Vou abraçar eles, me puxam de volta. Acho que foi o homem. Papai mandou obedecer.
Colocam a gente dentro de um quarto. Parece um banheiro grande, branco. Agora eu posso abraçar papai, não tem nenhum homem bravo daquele. Estamos só nós e muitas pessoas lá dentro, todas com as estrelas nos braços. Se abraçam, se beijam, choram muito, as mamães e as crianças. Minha mãe também, eu não sei porque. O que estamos fazendo ali?
Que fumaça é essa? È pesada, tá dificil de respirar. Mamãe e papai tossem, eu tampo minha boca, é o jeito certo de tossir, mamãe ensinou. Estou tossindo bastante, começou a doer, mas eu não consigo parar. Todos tão tossindo, tudo tá ficando escuro. Mamãe e papai tão deitados no chão, só fazem tossir. Eu caí e mamãe me abraça. Tudo tá muito escuro. Não tô tossindo mais. Não escuto mais nada, não vejo mais ninguém.

Saturday, December 02, 2006

O Presente (ou Desculpa Para Não Dar Presentes, você escolhe o título)

O presente é um tremendo de um presente - o passado já se foi, futuro pode não ser um bom presente. Quando ganhamos algo de quem nós gostamos, é como se isso sempre nos pertencesse. Pode ser uma caixa de chocolates - que acaba no mesmo dia, a não ser que dê uma dor de barriga - uma flor, um carro, qualquer coisa (claro que um carrão ou uma jóia é muito mais 'presença'). Mas eu acredito que o melhor presente são sentimentos. Raciocine comigo.
Um sentimento não tem preço. Claro que isso não é desculpa, pois algo que não tem preço pode não valer nada, mas não é esse o caso. Estou falando de um BOM sentimento; Um sentimento nunca vem sozinho - quando estamos apaixonados, por exemplo (exemplo!!!!!!), vem muitos outros sentimentos: alegria, prazer, tesão, compreensão, e quem sabe até felicidade e esperança. Ou a amizade, que trás inúmeros sentimentos, como companheirismo, camaradagem, ajuda, alegria, risos e sorrisos, etc, etc... Por essa lógica, um sentimento como presente são vários presentes, já que são vários sentimentos;
Um sentimento como presente pode ser infinito. Claro que sentimentos acabam, mas fica o aprendizado - esse sim é eterno.
Um sentimento (estou ficando repetitivo) muda tudo, muda mais do que determinadas coisas materiais. Por exemplo: camisas feias que não cabem, ou cd's de música brega, ou qualquer outra coisa que se queira trocar, porque quem comprou seguiu o próprio gosto e ainda disse: "Ah, acho isso a sua cara". Ao menos, nesse caso, veio o sentimento da lembrança. E é da lembrança que vem (tradicionalmente) o presente, fazendo o ciclo lembrança = presente, e sendo a lembrança um sentimento, logo: sentimento = presente. Entendeu?
Voltando ao início, e seguindo a lógica de que sentimentos acabam, o que sentimos está no nosso presente, porque se não sentimos, já é passado. Logo, se você está no meu presente é porque eu te sinto e se eu te sinto, você sempre estará no meu presente (mesmo que não nos vejamos sempre), e esse é o melhor presente que eu posso te dar (liso?!). E, sendo assim, o presente é o meu melhor presente.

Era um pouco mais de informação do que eu precisava... (Ficção)

(Antes de ler isso, sugiro a leitura de: http://ficcaonaocientifica.blogspot.com/2006/11/fico-no-cientfica.html)

Abro meus olhos com o sol no meu rosto. Onde é que estou? Que horas são? De quem são esses cabelos ruivos e essas costas femininas do meu lado? As respostas surgem mais simples que as perguntas: Estou em casa, são 5:49 da manhã e os cabelos ruivos pertencem a Ela. Pensando bem, essa última resposta não é tão simples. "Quem é ela", me toquei de que não sabia. Sei seu nome, claro, estamos juntos fazem alguns meses, e eu não faço idéia de quem ela é. Inteligente, sagaz? Expressiva, espontânea? Talvez. Bonita? Sem dúvida. Eu sei que, outrora, tirei essas e outras conclusões a respeito dela, mas nada disso me parece plausível agora. Meu julgamento na hora em questão não é mais tão confiável.
Não que ela e eu não conversássemos; ao contrário, conversávamos até demais. O timeco de futebol para o qual ela torce eu me lembro; que odeia calcinha fio-dental ela me disse. Adora a saga "Jogos Mortais", sabe como cada personagem morre e a sequência certa. Adora McDonalds, vomita sushi. Ganha mais de mesada do que eu de salário, dorme tarde e até tarde (igual a mim), tem medo de fantasmas (diferente de mim). Já beijou mais do que eu, já fiz mais sexo do que ela. Meia dúzia de namorados anteriores a mim - e nem namorado sei se sou. Nos apaixonamos por um número igual de pessoas. Não sei se eu conto como paixão na lista dela - ela tem uma lista, sim - e nem se a própria conta como paixão para mim. Só sei que agora está deitada do meu lado, completamente nua e desconhecida - o que é uma contradição porquê, tecnicamente, se está nua do meu lado, eu deveria saber algo sobre ela.
Na noite passada, resolvemos ter uma - na verdade, a primeira - conversa séria de verdade. O que estávamos fazendo durante aquele tempo juntos, o que realmente tínhamos feito nas nossas vidas. No nosso passado, quem foram os personagens principais, quem foram os coadjuvantes. O que esperavámos do resto dos nossos dias. O que tínhamos aprendido, quem tínhamos guardado, quem tínhamos desprezado. O que existia em comum entre nós, o que não existia. Experiências sexuais, fantasias secretas. Quem nos tornaríamos, se uma pessoa juntos ou duas pessoas separados. Pratos limpos, roupas lavadas, cartas na mesa, jogamos tudo. Jogamos tudo para o alto.
E assim foi. Acabamos por nos conhecer demais, talvez mais do que era necessário - ou talvez mais do que realmente quiséssemos. Não valeu a conversa. "Quebrou o encanto", diria um velho sábio que conheci. Agora eu estou aqui deitado, cansado - por ter acordado na hora em que normalmente durmo - querendo ir embora da minha própria casa. Não quero lidar com o fim. Mas não iria adiantar de nada, eu tenho que dizer ou responder o "adeus". Sei que ela se sente do mesmo jeito, notei quando fizemos amor (?), como se fosse a última vez. Tenho certeza que foi.
Me levanto trôpego e fecho as cortinas que, abertas, me deixavam vulneráveis ao sol. Ela não parece se importar, dorme profundamente. Deito de volta para dormir, a fim de adiantar o relógio em direção ao inevitável "adeus" - ao invés do costumaz "bom dia". Quem será o primeiro a dizer? Quem terá que responder? Ela, eu?

Friday, December 01, 2006

Minhas Letrinhas


Eu ia postar uma ficçãozinha aqui, que eu fiz anteontem à noite, mas uma conversa me fez refletir mais sobre a minha escrita (que alguns de vocês tecnicamente ainda não viram). Uma garota que eu conheço, ao comentar sobre o meu mais novo blog (esse) me disse a seguinte frase: "você escreve bem, deve mostrar o seu trabalho" (ou algo parecido, mas a palavra trabalho estava lá, imaculada). Odeio que se refiram a qualquer coisa que eu faça de graça usando essa palavra amaldiçoada. Amaldiçoada pelo dinheiro.
Você deve estar pensando que eu vou começar a fazer um discurso contra o capitalismo, ou contra "vender minha arte" - arte eu também não gosto de usar como definição, já que não tenho o talento necessário para ser um artista. Não é nada disso. É pura e simplesmente pelo fato de não ser nenhum trabalho. Não ganho dinheiro, o que é mais importante, faço por prazer, faço porque gosto. Citando o texto anterior, faço porque sou perturbado.
Então, diante da minha velada indignação pela forma como ela chamou genericamente o que eu escrevo, me perguntou: "E como é para chamar?" Daí ela começou: "seus textos? suas crônicas? suas ficções não-científicas? seus contos?"
Eu não sabia. Cada coisa que escrevo pode ser uma dessas coisas, pode ser todas ou pode ser nenhuma. Nada era completo o suficiente. Tudo que eu fazia era colocar letrinhas na tela do computador. Letrinhas. Minhas.
E assim ficou. Minhas letrinhas. Eu não escrevo crônicas, eu não escrevo ficções (científicas ou não), não escrevo trabalhos nem faço arte. Nada contra ambos. Escrevo minhas letrinhas

"É preciso ser um verdadeiro artista para viver da própria arte" (Anônimo)

P.S. A ficçãozinha fica pra amanhã.

Ficção Não-Científica


Eu não sei escrever. Isso é um fato. Às vezes, num relance, tenho boas (?) idéias, mas não sei passá-las para o papel (tela do computador). Pedro Juan Gutierréz disse que de nada vale uma arte que não seja perturbada. Escrevo por isso. Sou perturbado.
Perturbado pelas críticas, pelo que já escrevi no passado. Coisas que eu acho invariavelmente ruins. Acho que tenho que fazer o curso de Letras na universidade, ou ler mais coisas que eu considero chatas e que consideram geniais. Sinceramente não me importa muito. Quando escrevo alguma coisa, aquilo fica daquele jeito. Dou uma revisada gramatical, pego o "Pai dos Burros" para checar uma ou outra palavra, mas em geral, fica como está.
Li uma vez um livro sobre "como escrever best sellers" e a primeira dica era: "Quando terminar de escrever, reescreva tudo denovo". Foi nessa hora que eu percebi que não sabia escrever - pelo menos não sabia escrever best-sellers. Uma das críticas que eu já recebi pelo menos 10 vezes de pessoas que me conhecem muito bem foi: "Você escreve como fala". Fiquei muito triste e muito feliz ao mesmo tempo. Muito triste porque eu não sei fugir da minha linguagem usual, muito feliz por que tenho um estilo próprio, reconhecível.
Admito que isso me assusta: pensarem que a ficção que eu escrevo me descreve. Quando descobrirem que não me descreve, me chamarão de mentiroso. Seria como "Papai Noel não existe": o °F não existe! Deve ser por isso que escrevem "Isso é uma obra de ficção, qualquer personagem ou fato existente na vida real é mera coincidência". Devem ter medo de serem confundidos com o vilão da estória. Ou pode ter alguma lei que, interpretada de maneira (in)conveniente, permita o escritor ser processado por algo que ele escreveu. Não posso falar dos (pelos) outros escritores: eu não maqueio a realidade na minha ficção. Apenas escrevo.
Ficção. Não-científica.
"Um escritor é alguém congenitamente incapaz de dizer a verdade. Por isso, o que ele escreve se chama ficção" (William Faulkner)